Campanha Roberto Cidade: relatório da PF expõe indícios de obstrução em operação contra suposto uso da máquina estadual
Documento obtido com exclusividade pelo G1 Amazonas(Rede Amazônica) e reproduzido pelo Portal Zona Franca detalha equipamento apresentado como inutilizado, notebook localizado após negativa de servidores e alegação de que a agência já sabia da decisão judicial antes da chegada da PF. Investigação apura uso da máquina pública na campanha à reeleição do governador Roberto Cidade.

A Polícia Federal concluiu o relatório da operação de busca e apreensão realizada na Agência Amazonense de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental (Aadesam) e reuniu uma série de indícios de que o órgão sabia, antecipadamente, que seria alvo da diligência. Entre os pontos levantados pelos investigadores estão um computador do setor de Recursos Humanos apresentado como “corrompido” horas antes da chegada da equipe e um notebook localizado depois que servidores negaram a existência de outros equipamentos no local.
A ação, cumprida em 3 de setembro, integra uma investigação que apura o suposto uso da estrutura do Governo do Amazonas em benefício da campanha à reeleição do governador Roberto Cidade (União Brasil). Os relatórios da PF também citam o vice-governador Serafim Corrêa (PSB), companheiro de chapa, e o presidente da Aadesam, William Alexandre Silva de Abreu — que teve o afastamento do cargo pedido pelo Ministério Público Eleitoral no último domingo (20).
Por que a Justiça autorizou a busca e apreensão
A medida foi autorizada pela desembargadora Nélia Caminha Jorge, do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM), em 31 de agosto, depois que informações indicaram risco de destruição, ocultação ou alteração de documentos e dados que deveriam ser preservados. A decisão veio poucos dias depois de outra determinação judicial, de 19 de agosto, que já obrigava a Aadesam a preservar e apresentar registros de admissões e desligamentos de servidores a partir de 1º de julho deste ano.
Segundo a PF, a apuração busca esclarecer se a movimentação de servidores da capital para o interior do estado, nesse período, teve motivação eleitoral. Diante do risco de perda de provas, a Justiça autorizou a apreensão de computadores, notebooks, mídias removíveis e outros dispositivos eletrônicos encontrados na sede do órgão.
O computador que “parou de funcionar” na manhã da operação
Um dos pontos que mais chamou atenção dos investigadores foi a situação do computador usado pelo setor de Recursos Humanos da agência. De acordo com o relatório, o gerente do setor informou que a máquina havia apresentado defeito na própria manhã da diligência e, por isso, já havia sido encaminhada para manutenção com a equipe de Tecnologia da Informação.
O equipamento, da marca Positivo, acabou sendo localizado pelos agentes na sala de rede da agência. Ele foi recolhido pelo responsável pelo setor de TI e apresentado à PF com a informação de que estaria “corrompido”, travando na tela de BIOS antes de concluir a inicialização. A Polícia Federal apreendeu a máquina e afirma que apenas uma perícia técnica poderá esclarecer se houve, de fato, uma falha ou se os dados foram apagados ou formatados intencionalmente.
Indícios de que a agência já sabia da decisão judicial
O relatório também aponta que a Aadesam parece ter tido conhecimento da ordem de busca e apreensão antes da chegada dos agentes. Segundo funcionários e o próprio presidente do órgão, a decisão teria sido identificada por meio de uma notificação automática do sistema processual — o que teria permitido que os documentos exigidos pela Justiça já estivessem separados no momento em que a equipe policial chegou.
Ainda no início da diligência, a defesa da Aadesam informou aos agentes que já havia protocolado uma petição pedindo a revogação da decisão judicial, anexando cópia da documentação solicitada. Em seguida, entregou espontaneamente um pen drive Multilaser de 128 GB, alegando que o dispositivo continha os arquivos determinados pela Justiça. O material também foi apreendido pela PF.
Notebook “inexistente” é encontrado ao lado do computador da Presidência
Outro trecho do relatório chama atenção pela contradição registrada pelos investigadores. Questionados especificamente sobre a existência de notebooks, mídias removíveis e celulares corporativos no local, o presidente da Aadesam e demais servidores afirmaram, verbalmente, que não havia outros equipamentos na sede.
Apesar da negativa, a equipe deu continuidade à busca na antessala da Presidência e encontrou um notebook da marca Samsung, com carregador, posicionado ao lado do computador all-in-one usado pelo próprio presidente do órgão. Além desse notebook, a PF apreendeu outro computador da Presidência e um celular corporativo que, segundo o relatório, era utilizado em comunicações com funcionários — e que teria sido desligado nos dias 3 e 4 de julho deste ano.
Defesa tentou barrar a retirada dos equipamentos
Durante a operação, o advogado da Aadesam contestou verbalmente a apreensão física dos computadores, argumentando que a decisão judicial não previa expressamente essa medida. A Polícia Federal, no entanto, não acatou o argumento, já que o mandado judicial não trazia qualquer restrição nesse sentido.
Segundo os investigadores, a apreensão dos equipamentos foi considerada necessária para preservar a cadeia de custódia das informações e evitar eventuais alterações nos dados armazenados — um cuidado reforçado justamente pelos episódios do computador “corrompido” e do notebook inicialmente negado.
Buscas em outros três endereços na Zona Sul de Manaus
Além da ação na sede da Aadesam, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão em outros três pontos da Zona Sul de Manaus, ligados à mesma investigação.
Em um comitê de campanha no bairro Japiim, os agentes procuravam computadores que, segundo a decisão judicial, poderiam conter registros paralelos de gastos eleitorais feitos em espécie — nenhum deles foi localizado. Ainda assim, um notebook protegido por senha foi apreendido no térreo do imóvel, sem que fosse possível o acesso ao conteúdo no momento da diligência.
No bairro Morro da Liberdade, os policiais encontraram um caderno com nomes de pessoas ligadas à campanha, mas, por não haver registros de valores, o material não foi apreendido. Já em um endereço no bairro Aparecida, nenhum item relacionado à investigação foi encontrado.
O que dizem os envolvidos
Em nota, o Governo do Amazonas afirmou que a Aadesam tem prestado todos os esclarecimentos solicitados pelas autoridades e mantém postura de colaboração com a Justiça. Segundo o Executivo estadual, a agência já havia encaminhado espontaneamente documentos relacionados ao caso antes mesmo do cumprimento do mandado e seguirá à disposição para fornecer novas informações.
O vice-governador Serafim Corrêa disse desconhecer os fatos mencionados na investigação e negou qualquer prática ilícita: “Não aceito nenhuma acusação de um fato que, se é que existiu, eu não pratiquei. Ponto final”, declarou.
Procurada, a reportagem não obteve, até a publicação desta matéria, resposta do governador Roberto Cidade nem da defesa do presidente afastado da Aadesam, William Abreu. O espaço permanece aberto para manifestação.
Com informações da apuração e documentos obtidos com exclusividade pelo g1 (Rede Amazônica).
