INDICADORES ECONÔMICOS

Gastos ou juros: o dilema que vai definir a economia em 2027

Nov 8, 2026 · Por Gilberto Martins

Projeções apontam PIB (Produto Interno Bruto) perto de 1% no próximo ano, e a recessão já não é descartada. O alerta reacende a disputa sobre o remédio: cortar gastos, como pede o mercado, ou cortar juros, como propõe André Lara Resende.

A economia brasileira pode entrar em recessão em 2027. Projeções do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, centro de pesquisa responsável pelo IGP-M e pela datação oficial das recessões no país), de consultorias e de bancos indicam crescimento em torno de 1%. Um exercício preliminar do Ibre estima que, se juros e dólar seguirem em alta, comércio, indústria de transformação e serviços recuariam 0,5%.

O diagnóstico de desaceleração é compartilhado por economistas de linhas distintas. A divergência está no tratamento. E ela ganha peso no momento em que o presidente Lula, reeleito em 25 de outubro, monta a equipe do quarto mandato, que começa em 5 de janeiro de 2027.

Juros altos e famílias endividadas

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central interrompeu em 4 de novembro a sequência de cortes e manteve a Selic, a taxa básica de juros da economia, em 13,75% ao ano, por unanimidade. A taxa ficou em 15% de junho de 2025 a março de 2026, o maior nível em quase 20 anos, e caiu cinco vezes desde abril.

O primeiro Boletim Focus após a eleição, pesquisa semanal do Banco Central que reúne as projeções do mercado financeiro, piorou as expectativas. A inflação projetada para 2026 subiu de 5,19% para 5,22%, a Selic de fim de ano de 13,25% para 13,5% e o dólar de R$ 5,05 para R$ 5,34. A moeda americana fechou perto de R$ 5,45 na semana do Copom.

O endividamento agrava o quadro. Segundo o Ibre, 81,3 milhões de CPFs estão negativados, quase metade da população adulta. Até aqui, emprego em alta, impulso fiscal e programas como o Desenrola aliviaram a pressão sobre as famílias.

InstituiçãoPIB 2027 (projeção)
Itaú1,2%
Bank of America0,8%
Ibre-FGV (atividades cíclicas, cenário de piora)-0,5%

A receita do mercado: cortar gastos

Para bancos, gestoras e boa parte dos economistas ortodoxos, a raiz do problema é fiscal. O desgaste do arcabouço e o adiamento de reformas em ano eleitoral elevaram o risco de recessão técnica em 2027. O esforço necessário para equilibrar o orçamento e recuperar credibilidade é estimado em cerca de R$ 500 bilhões.

A lógica é sequencial. Contas críveis reduziriam o prêmio de risco, aliviariam dólar e juros futuros e abririam espaço para o BC cortar a Selic. Economistas desse campo falam em uma moderação ordenada da atividade, com inflação menor e disciplina fiscal, como caminho para juros mais baixos de forma sustentável.

O pesquisador Fabio Giambiagi, do Ibre, detalhou essa receita no estudo “Motosserra não, ajuste sim: política fiscal para 2027/2030”, de fevereiro. Ele rejeita um corte de choque como o da Argentina e propõe um ajuste gradual, com meta de superávit primário já em 2027 e de 0,7% do PIB em 2030.

As principais medidas do estudo:

  • Gasto real zero em 2027: despesas primárias sem crescimento acima da inflação, o que exigiria corte real inicial de 23% nas despesas discricionárias.
  • Abono salarial: desvinculado do salário mínimo, pago a 75% em 2028 e reduzido 25 pontos por ano até a extinção em 2031.
  • Saúde e educação: a partir de 2028, o piso da saúde seguiria o indexador do teto de gastos; educação e Fundeb seriam corrigidos só pelo IPCA.
  • Salário mínimo e Previdência: correção apenas pela inflação, sem ganho real, de 2028 a 2039.
  • Arcabouço mais rígido: a despesa seguiria limitada a 70% da alta da receita, com crescimento real mínimo de zero (hoje 0,6%) e máximo de 2% (hoje 2,5%).
  • Receita: ganho de 0,5% do PIB com corte de benefícios tributários, sobretudo deduções de saúde e educação no Imposto de Renda.

Abono, pisos constitucionais e regras do salário mínimo seriam alterados por uma “SuperPEC”, que exige três quintos do Congresso. O diagnóstico do estudo é que a despesa primária subiu de 18% do PIB em 2022 para 19,1% em 2026, e a dívida bruta, de 71,7% para cerca de 83%.

O peso do ajuste recai sobre salário mínimo, aposentadorias, abono e os pisos de saúde e educação. Para os defensores, são as despesas que mais crescem e sem contê-las não há como estabilizar a dívida.

A alternativa de Lara Resende: cortar juros

Um dos formuladores do Plano Real, André Lara Resende inverte o diagnóstico. No artigo “Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”, publicado em 25 de setembro[em sua própria newsletter na plataforma Substack], ele afirma que o desequilíbrio fiscal vem do custo da dívida, não do gasto primário. Nos últimos 12 meses, os juros consumiram mais de R$ 1,1 trilhão, ou 8,9% do PIB.

A proposta tem três pilares:

  • Reduzir a Selic de forma gradual para 7,5% ao ano em cerca de 12 meses, com um spread transitório de segurança de 2 pontos.
  • Anunciar em conjunto metas fiscais e de juros para quatro a cinco anos, sob um mecanismo de coordenação mais amplo que o Conselho Monetário Nacional.
  • Usar as reservas internacionais para conter eventual desvalorização do real.

Para o economista, nenhum corte convencional do resultado primário geraria economia dessa magnitude sem provocar recessão profunda. Ele não nega o gasto ruim: cita emendas parlamentares, vantagens salariais do Judiciário e isenções tributárias como alocação irracional de recursos.

Os riscos de cada caminho

As duas receitas têm custos, e seus críticos os apontam com clareza.

 Ajuste fiscalCorte de juros (Lara Resende)
DiagnósticoGasto primário alto mina a credibilidadeJuros da dívida são o principal rombo
OrdemFiscal, depois jurosJuros, depois fiscal
Principal riscoAprofundar a desaceleração ao cortar gastosAlta do dólar e da inflação
Ponto institucionalPreserva a autonomia do BCQuestiona a autonomia do BC
Quem defendeBancos, gestoras, BC, parte do IbreHeterodoxos, Gabrielli, Gleisi Hoffmann

Contra o ajuste, o economista Nelson Marconi, da FGV, avalia que juros e ajuste fiscal juntos elevam o risco de recessão em 2027. Contra Lara Resende, o mercado vê na proposta uma redução de juros “na canetada”, e o BC sustenta que a Selic precisa seguir restritiva para levar a inflação à meta. Até analistas que o respeitam pedem cautela com levar a taxa a 7,5% por arranjo institucional.

Há um ponto em comum: os dois lados admitem que a dívida cresce de forma insustentável.

O que diz o governo

A proposta de Lara Resende entrou no debate, mas não na agenda oficial. José Sergio Gabrielli, coordenador do programa de governo, escreveu que a ideia de um mecanismo de coordenação mais amplo que o CMN (Conselho Monetário Nacional, que fixa a meta de inflação) merece atenção especial. A deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) apoiou o artigo nas redes.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou reunião agendada entre Lula e o economista e afirmou que o governo não discute tabelamento de juros. O próprio Lara Resende negou ter falado com o presidente e disse que a notícia do encontro foi “plantada”.

A definição da nova equipe econômica e das metas fiscais de 2027 dirá qual das duas leituras vai prevalecer. Até lá, o dólar deve seguir mais sensível aos sinais fiscais do novo governo do que às decisões do Copom.

Esta reportagem contou com o apoio do Claude, assistente de inteligência artificial da Anthropic, na pesquisa e organização das informações. A apuração, a checagem e a edição final são de responsabilidade do autor.

Fontes

Receba mensagem no WhatsApp