POR DENTRO DA ZONA FRANCA

Japão busca garantias na Suframa e sinaliza fôlego novo para investimentos no Polo Industrial de Manaus

Em visita à autarquia, embaixador japonês discutiu segurança jurídica, Reforma Tributária e logística. Suframa aposta na relação histórica com empresas nipônicas para atrair novas fábricas e gerar empregos na região.

– A relação entre o Japão e a Zona Franca de Manaus (ZFM) ganhou um novo capítulo nesta terça-feira (3). Uma comitiva diplomática liderada pelo embaixador do Japão no Brasil, Yasushi Noguchi, esteve na Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) para uma reunião solicitada pela própria Embaixada. O pedido partiu do lado japonês, o que sinaliza interesse ativo em entender as regras do jogo no Polo Industrial de Manaus (PIM) num momento de transição no sistema tributário brasileiro.

Acompanharam o embaixador o cônsul-geral do Japão em Manaus, Yuichi Miyagawa, e o vice-cônsul, Akira Suzuki. A pauta reuniu três eixos: a segurança jurídica do ambiente de negócios da ZFM, a presença histórica do Japão na cultura e na economia do Amazonas e o peso das empresas japonesas na construção e consolidação do PIM.

Uma recepção técnica

A delegação foi recebida pelo superintendente-adjunto Executivo da Suframa, Wagner Santana, ao lado de coordenadores das áreas que, na prática, definem o caminho de qualquer investidor estrangeiro em Manaus: Luiz Frederico Aguiar, da Coordenação-Geral de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais (Cogin); Raphael Nery, da Coordenação-Geral de Análise de Projetos Industriais (CGPRI); e Rafael Gouveia, da Coordenação-Geral de Desenvolvimento Regional (CGDER). O servidor da Cogin Arthur Lisboa também participou.

A composição da mesa diz muito sobre o tom do encontro. Mais do que uma visita protocolar, a reunião teve caráter técnico: estavam presentes os responsáveis pela análise e aprovação de projetos industriais, pelo relacionamento com o exterior e pelas políticas de desenvolvimento regional — justamente as etapas que uma empresa estrangeira precisa percorrer para se instalar no polo.

Segurança jurídica no centro da conversa

O tema que abriu a agenda não foi escolhido por acaso. Para investidores internacionais, sobretudo os de perfil conservador e de longo prazo, como costumam ser os grupos japoneses, previsibilidade das regras pesa tanto quanto o tamanho do incentivo fiscal. Uma fábrica leva anos para dar retorno, e mudanças inesperadas na legislação podem comprometer todo o planejamento.

Wagner Santana afirmou que a autarquia tem avançado na edição de normativos para reforçar a segurança jurídica dos investimentos na região e reiterou que a ZFM segue aberta a novas empresas e parcerias. “Há, sem dúvidas, uma expressiva participação de empresas de capital japonês no PIM e temos convicção de que existe um cenário positivo diante dos reflexos positivos da Reforma Tributária para a expansão da atuação dessas empresas, bem como para o impulsionamento de novos negócios bilaterais”, disse.

O fator Reforma Tributária

A menção à Reforma Tributária é central para entender o momento. A reforma substitui gradualmente tributos sobre o consumo por um novo modelo, e a manutenção do tratamento diferenciado para a Zona Franca foi um dos pontos mais debatidos durante sua tramitação. Para quem já opera ou pretende operar em Manaus, a principal dúvida é como os benefícios do modelo serão preservados na nova estrutura.

Ao associar a reforma a um “cenário positivo”, a Suframa busca transmitir aos japoneses a mensagem de que a vantagem competitiva do polo foi mantida. Para o PIM, isso tem efeito direto: regras claras reduzem o risco percebido pelo investidor, facilitam decisões de ampliação de linhas de produção já existentes e tornam a região mais atraente para a chegada de novas indústrias.

Incentivos, contrapartidas e o caminho para instalar uma fábrica

Durante a reunião, Luiz Frederico Aguiar apresentou o modelo da Zona Franca de Manaus em detalhes: os incentivos fiscais oferecidos, as contrapartidas exigidas das empresas e o passo a passo para implantação de novas indústrias.

O ponto das contrapartidas merece atenção do leitor. Os benefícios da ZFM não são concedidos sem obrigações. As empresas incentivadas precisam cumprir exigências como etapas mínimas de produção local e investimentos em pesquisa e desenvolvimento, entre outras regras. É essa troca que sustenta o argumento de que o modelo gera emprego, renda e qualificação na região, e não apenas renúncia fiscal.

Logística: o desafio da estiagem

Outro tema da agenda foi a logística, historicamente um dos pontos sensíveis do polo. Instalado no coração da Amazônia, o PIM depende fortemente dos rios para receber insumos e escoar a produção para o restante do país e para o exterior.

A Suframa destacou o papel dos portos de Manaus e de Itacoatiara no transbordo de cargas, inclusive nos períodos de estiagem. A questão ganhou relevância nos últimos anos, com secas severas que reduziram o nível dos rios e dificultaram a navegação de grandes embarcações. Ao apresentar Itacoatiara como alternativa de transbordo, a autarquia procura mostrar que há soluções para manter o fluxo de cargas ao longo de todo o ano — garantia essencial para indústrias que trabalham com prazos de entrega rígidos e cadeias de suprimento globais.

Expansão, inovação e bioeconomia

Na parte final do encontro, a comitiva japonesa tirou dúvidas sobre a expansão territorial do Distrito Industrial, novos investimentos, incentivos e diretrizes para projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) e bioeconomia.

As perguntas indicam para onde olha o interesse estrangeiro. A expansão do Distrito Industrial está ligada à disponibilidade de áreas para novas plantas. Já PD&I e bioeconomia apontam para uma agenda que vai além da montagem industrial tradicional: o aproveitamento sustentável da biodiversidade amazônica e o desenvolvimento de tecnologia na própria região, campos em que a parceria com um país de forte tradição tecnológica pode abrir novas frentes.

O papel estratégico das empresas japonesas no PIM

A presença japonesa em Manaus não é recente. Empresas de capital nipônico estão entre as que ajudaram a estruturar o polo desde suas primeiras décadas, especialmente nos segmentos de eletroeletrônicos e duas rodas, e seguem com participação relevante na produção local. A relação também tem dimensão cultural, ligada à imigração japonesa no Amazonas.

Para o superintendente da Suframa, Leopoldo Montenegro, a aproximação contínua com a diplomacia e o empresariado japonês reforça o compromisso do modelo com a inovação e o desenvolvimento sustentável. “A presença das indústrias nipônicas é histórica e fundamental para o sucesso do Polo Industrial de Manaus. Continuaremos trabalhando para oferecer estabilidade, modernizar nossos processos e atrair novos investimentos que gerem emprego, renda e avanço tecnológico para toda a nossa região”, afirmou.

O que está em jogo

A visita não resultou, ao menos publicamente, em anúncios de novos investimentos. Seu peso está no sinal: a iniciativa partiu da Embaixada, e os temas levados à mesa — segurança jurídica, impactos da Reforma Tributária, logística e áreas para expansão — são típicos de quem avalia cenários antes de tomar decisões.

Para o Polo Industrial de Manaus, manter a confiança de investidores de longa data como os japoneses é tão importante quanto atrair novos. Cada ampliação de fábrica ou nova planta significa mais postos de trabalho, mais encomendas para fornecedores locais e mais recursos para pesquisa na região. O desafio da Suframa daqui em diante será transformar o discurso de estabilidade em regras concretas e previsíveis, capazes de converter interesse diplomático em investimento efetivo.

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