O preço do dinheiro: a proposta de Lara Resende e os juros que sufocam o Brasil
Nov 2, 2026 · @GILBERTO MARTINS
Um dos pais do Plano Real propõe derrubar a Selic para 7,5% em um ano e assusta o mercado. Mas, para o brasileiro comum, o juro que mais pesa é outro: o do cartão de crédito, que chegou a 451,7% ao ano — dezenas de vezes o cobrado nos Estados Unidos ou na Europa.

Um artigo publicado em um blog no fim de setembro virou o assunto econômico da semana em que Lula começa a desenhar seu quarto mandato. O economista André Lara Resende, ex-presidente do BNDES e um dos formuladores do Plano Real no governo Itamar Franco e FHC, defende que o problema das contas públicas brasileiras não é o gasto, mas os juros. E propõe colocar a taxa básica dentro de uma faixa de 3% a 5,5% ao ano.
A ideia ganhou corpo depois que a coluna de Lauro Jardim, em O Globo, informou em 1º de novembro que o economista poderia apresentá-la ao presidente. A reação da Faria Lima foi imediata. E reabriu um debate antigo: por que o dinheiro custa tão caro no Brasil — para o governo e, sobretudo, para quem passa o cartão.
“Eu Acuso”: o que propõe Lara Resende
O texto se chama “Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos” e saiu no Substack do economista. O título faz eco ao manifesto de Émile Zola no caso Dreyfus — e o acusado, aqui, é a política de juros.
O diagnóstico. Segundo os números citados no artigo:
- a dívida bruta é de cerca de R$ 10,9 trilhões, 82,5% do PIB;
- o custo médio da dívida chegou a 12,68% ao ano em junho de 2026;
- os juros consomem cerca de 10,5% do PIB por ano;
- em 12 meses até julho, o déficit primário (sem juros) foi de apenas 0,7% do PIB, mas o nominal (com juros) chegou a 9,3%.
Para Lara Resende, a conclusão é direta: a Selic é a principal causa do desequilíbrio fiscal. Juros que tornam a dívida explosiva corroem a credibilidade que deveriam proteger.
A proposta, em cinco pontos:
- Criar um Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), que fixaria metas fiscais e monetárias conjuntas para quatro a cinco anos.
- Anunciar, junto com a meta de inflação (3%), uma faixa para a Selic: o piso seria a própria meta; o teto, o crescimento nominal potencial da economia, cerca de 5,5%.
- Fazer a transição em cerca de 12 meses, com a Selic caindo até perto de 7,5% — o teto mais um spread provisório de 2 pontos, a ser zerado depois.
- Usar as reservas internacionais, acima de US$ 350 bilhões, para conter uma eventual disparada do dólar se o capital especulativo (carry trade) sair do país.
- Aproveitar o fato de que mais da metade da dívida está em LFTs, títulos atrelados à Selic: a queda dos juros reduz o custo da dívida quase de imediato.
A conta. Se o custo médio cair de quase 13% para 7,5% ao ano, a economia seria de cerca de 4% do PIB por ano, e o déficit nominal recuaria de mais de 10% para cerca de 6% do PIB. O ganho não é instantâneo: títulos prefixados e atrelados à inflação só mudam de custo quando são renovados.
A base teórica é heterodoxa. Lara Resende recorre à visão neofisheriana, associada ao economista americano John Cochrane, segundo a qual, no longo prazo, juros altos acabam alimentando a inflação em vez de contê-la.
A repercussão: Faria Lima em alerta, governo na defensiva
A proposta vai frontalmente contra o consenso do mercado financeiro, para quem os juros são altos por falta de credibilidade fiscal — e não o contrário.
O mercado. Gestores ouvidos pela Folha de S.Paulo, sob anonimato, falaram em cenário de “terra arrasada” para os ativos brasileiros se a ideia avançar. O argumento central é que fixar uma faixa para a Selic acabaria, na prática, com a autonomia do Banco Central, garantida pela Lei Complementar 179/2021.
- Felipe Miranda, ex-CEO da Empiricus, chamou a proposta de “tiro no pé”: os efeitos de segunda ordem, como dólar e inflação, superariam o alívio nos juros.
- Ana Paula Vescovi, ex-secretária do Tesouro, criticou o uso das reservas como instrumento monetário. Para ela, as reservas são o seguro externo do país, e pressões persistentes virariam vendas recorrentes.
- Sérgio Vale, da MB Associados, lembrou 2012, quando a queda forçada dos juros no governo Dilma terminou com a inflação no teto da meta.
- Marcos Mendes, do Insper, diz que a proposta depende de um ajuste fiscal estrutural que ainda não existe.
O fogo amigo heterodoxo. A crítica não vem só da ortodoxia. O economista José Luis Oreiro, de linha keynesiana, chamou o diagnóstico de “impecável”, mas a terapia de “ingênua”. Para ele, sem controle de capitais, as reservas se esgotariam rapidamente diante de mais de R$ 11 trilhões em riqueza financeira líquida, com risco de disparada do dólar e inflação de 7% a 9%. Oreiro propõe outro caminho: elevar a meta de inflação para 4% ou 4,5%, trocar gradualmente as LFTs por títulos prefixados e taxar fluxos de capital de curto prazo.
O governo e o PT. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que haja reunião marcada entre Lula e Lara Resende e afirmou que o governo não discute “tabelar” a Selic. Segundo a Folha, porém, interlocutores do governo pretendem levar a ideia ao presidente, e integrantes da equipe econômica planejam um encontro com economistas de diferentes correntes. No PT, o presidente do partido, Edinho Silva, criticou especulações sobre mudanças na economia; Gleisi Hoffmann elogiou o debate.
E o cargo? Nenhuma reportagem publicada até agora atribui a Lara Resende convite para a Fazenda ou outro posto. Ele já integrou a equipe de transição de Lula em 2022, e suas ideias não prosperaram naquela ocasião.
A herança do Plano Real: uma dívida que sobe junto com os juros
Para entender por que a proposta mexe tanto com o mercado, é preciso voltar aos anos 1980 e 1990. Para conviver com a hiperinflação, o Brasil indexou praticamente tudo: salários, aluguéis, contratos e a dívida pública. O Plano Real, de 1994, quebrou a maior parte dessas amarras — mas não todas.
Uma delas sobreviveu: as Letras Financeiras do Tesouro, as LFTs, títulos cuja remuneração acompanha a Selic dia a dia. Segundo Lara Resende, elas representam mais da metade da dívida pública. Na prática, sempre que o Banco Central sobe os juros para conter a inflação, a conta da dívida sobe automaticamente.
Esse é o ponto que economistas têm destacado nas redes ao explicar o artigo: a proposta funciona como uma espécie de desindexação da dívida, a peça que ficou faltando no Plano Real. Para os críticos, é justamente aí que mora o risco: as LFTs dão aos investidores um ativo líquido e protegido, e mexer na remuneração delas pode estimular a fuga para o dólar.
Do juro básico ao juro do bolsão: o abismo do cartão
Mesmo que a Selic caísse para 7,5%, como propõe Lara Resende, o consumidor que entra no rotativo do cartão continuaria pagando juros de três dígitos. Os dados do Banco Central de setembro de 2026, divulgados em 29 de outubro, mostram o tamanho da distância:
| Modalidade (pessoa física) | Juro médio, % ao ano |
| Rotativo do cartão | 451,7 |
| Parcelado da fatura | 193,0 |
| Cheque especial | 139,0 |
| Total do cartão (rotativo + parcelado) | 100,3 |
| Crédito livre, média geral | 49,0 |
| Selic (referência) | 13,75 |
A diferença entre o que o banco paga para captar dinheiro e o que cobra do cliente é o spread bancário. No cartão, ele responde por quase todo o juro: a Selic explica menos de um trigésimo da taxa do rotativo. Por isso, a pauta de Lara Resende e a do cartão andam juntas no debate público, mas são problemas diferentes. Baixar a Selic alivia o Tesouro; o cartão depende de concorrência, inadimplência e regulação.
Lá fora: o cartão brasileiro em outra escala
Comparado a outros países, o rotativo brasileiro não é apenas caro: está em outra ordem de grandeza. Ele custa cerca de 23 vezes o juro médio do cartão nos Estados Unidos e 12 vezes o do Reino Unido, mercado conhecido pelas taxas altas na Europa.
Fontes: Banco Central do Brasil (set/2026); Bankrate (EUA, 21/10/2026); Finder UK (mai/2026); Superintendência Financeira da Colômbia via Noticias RCN (nov/2026); Banco de Portugal via LexPoint (2º tri/2026)
As medidas não são idênticas: nos EUA e no Reino Unido, trata-se de médias de mercado; na Colômbia e em Portugal, de tetos legais — o máximo que os bancos podem cobrar. Ainda assim, a diferença é grande demais para ser explicada por metodologia.
Portugal e Colômbia mostram um caminho que o Brasil não adotou. Em Portugal, o Banco de Portugal fixa a cada trimestre uma taxa máxima, calculada a partir da média praticada no mercado. Na Colômbia, a Superintendência Financeira define todo mês a tasa de usura, e cobrar acima dela é crime. Nos Estados Unidos, não há teto federal, mas a concorrência entre emissores e a inflação baixa mantêm as taxas perto de 20% ao ano.
Por que o teto não resolveu
O Brasil tentou conter o problema, mas pela metade. A Lei 14.690/2023, aprovada junto com o programa Desenrola e em vigor desde janeiro de 2024, não limita a taxa de juros do cartão: limita o total que a dívida pode acumular. Juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura não podem ultrapassar 100% do valor original. Quem deve R$ 1.000 pode pagar, no máximo, R$ 2.000.
Antes disso, uma regra de 2017 já obrigava os bancos a tirar o cliente do rotativo depois de 30 dias. O resultado: a dívida deixou de crescer sem limite, mas a taxa continua entre 424% e 452% ao ano ao longo de 2026.
Por que não tabelar a taxa? Há três argumentos em disputa:
- Os bancos atribuem os juros altos à inadimplência no rotativo e ao “parcelado sem juros”, em que o emissor do cartão financia as compras parceladas sem cobrar do cliente. Durante a tramitação da lei, o setor chegou a propor limitar o parcelado sem juros.
- Os críticos apontam a concentração bancária e a baixa concorrência como causas centrais, que a inadimplência sozinha não explica.
- Quem teme o tabelamento diz que os bancos cortariam crédito justamente dos mais pobres, empurrando-os para agiotas ou para outras formas de crédito ainda mais caras.
O que está em jogo
O Copom se reúne nesta terça e quarta-feira, 3 e 4 de novembro, com a Selic em 13,75% ao ano. É o primeiro encontro do comitê depois da reeleição de Lula, e o mercado vai ler o comunicado também como resposta ao debate aberto por Lara Resende.
No governo, a linha oficial é de cautela: nada de tabelar juros. Mas o simples fato de a proposta circular no Planalto mostra que o custo da dívida virou tema político do quarto mandato. Para o cidadão, a pergunta que fica é outra: mesmo que o governo consiga pagar menos juros, quem vai baixar os 451,7% do cartão?
“Texto de Gilberto Martins, com assistência de IA (Claude/Anthropic).”
Fontes
- Lara Resende, “Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos” (reprodução na Fundação Maurício Grabois, 25/09/2026)
- Seu Dinheiro – Por que o possível encontro de Lula com um dos pais do Plano Real deixou o mercado em alerta (02/11/2026)
- BPMoney – Proposta de Lara Resende chega ao governo e tensiona o mercado
- Hora do Povo – Lula se reúne com Lara Resende (01/11/2026)
- José Luis Oreiro – A proposta de Lara Resende para “tabelar” a Selic
- O Povo – Juro médio do rotativo sobe a 451,7% ao ano em setembro (30/10/2026)
- Bankrate via Cleveland19 – Current credit card interest rates
- Finder UK – Average credit card APR in the UK
- Noticias RCN – Tasa de usura de noviembre de 2026 (30/10/2026)
- LexPoint – Taxas máximas do crédito ao consumo, 2º trimestre de 2026
