O que a história nos revela sobre o Dia de Finados em Manaus
Do Ciclo da Borracha aos dias de hoje: igrejas, cemitérios, epidemias e a fé popular que leva centenas de milhares de manauaras aos campos santos. Apuração atualizada em 2 de novembro de 2026.

Em 1900, auge do Ciclo da Borracha, a malária sozinha matou 1.495 pessoas em Manaus, numa cidade de cerca de 50 mil habitantes. É como se, hoje, uma única doença levasse quase 70 mil manauaras em um ano. Em 2024, a cidade inteira, com mais de 2,3 milhões de moradores, registrou 12.282 óbitos de residentes, por todas as causas somadas.
Essa conta ajuda a entender por que a morte esteve tão presente na vida da “Paris dos Trópicos” e por que a cidade construiu, em menos de 40 anos, três cemitérios públicos. Também explica a força da devoção que, a cada 2 de novembro, ainda enche o centenário Cemitério São João Batista e o grande campo santo do Tarumã.
1. Como Manaus cultuava seus mortos no Ciclo da Borracha
Dos templos para fora da cidade. Até meados do século XIX, vivos e mortos dividiam o mesmo espaço: os enterros eram feitos dentro e ao redor das igrejas. Uma Carta Régia de 1801 já proibia sepultamentos nos templos das possessões portuguesas, mas a regra não foi cumprida em Manaus por décadas.
Covas rasas no Centro. Em 1853, o presidente da Província, Herculano Ferreira Penna, cobrava com urgência um cemitério público: os mortos ainda eram enterrados em covas rasas no Largo da Trincheira e junto à Igreja dos Remédios, expostos a animais. Como solução provisória, o terreno ao lado dos Remédios foi cercado e virou necrópole em 1854.
A epidemia muda tudo. As epidemias de cólera e febre amarela de 1855–1856 aceleraram o discurso médico-higienista. Os mortos passaram a ser vistos como foco de contágio, e a cidade abriu às pressas, em 1856, o Cemitério de São José, fora do núcleo urbano da época.
A morte na Belle Époque. Com a riqueza da borracha, a morte ganhou mármore. Os túmulos do São João Batista reúnem anjos, esculturas e mausoléus encomendados por famílias ricas, hoje estudados como o melhor acervo de arte tumular da cidade. Enquanto isso, nos subúrbios sem saneamento, a população pobre e os migrantes nordestinos morriam de malária, beribéri, tuberculose e febre amarela.
Fé e procissão. O momento simbólico dessa transição foi a véspera de Finados de 1906: em 1º de novembro, uma procissão levou a imagem de São João Batista da Igreja de São Sebastião até a nova capela do cemitério, inaugurada dois dias antes.
2. As igrejas onde se rezava pelos antepassados
Igreja de Nossa Senhora dos Remédios (Centro)
Sua história começa em 1818, quando o governador da Capitania de São José do Rio Negro, Manoel Joaquim do Paço, criou um imposto para erguer um templo à Virgem dos Remédios. A obra foi parcialmente destruída em 1821, numa revolta ligada à Independência, e reaberta no ano seguinte.
Depois do incêndio da Matriz, em 1850, os Remédios serviram de matriz provisória até 1877. Foi ao seu redor que funcionou o primeiro cemitério público improvisado (1854–1856), o “Cemitério dos Remédios” ou “da Cruz”. Atrás da igreja, a atual Praça Dom Pedro II foi erguida sobre um cemitério indígena descoberto no século XIX. O templo atual teve pedra fundamental em 1901, projeto do italiano Filintho Santoro, e só foi inaugurado em 11 de setembro de 1927.
Igreja de São Sebastião (Largo de São Sebastião)
A primeira capela, de madeira e palha, data de 1859, ano da chegada dos franciscanos. A igreja atual foi inaugurada em 7 de setembro de 1888, com uma única torre. Era ali que ficava a imagem de São João Batista trasladada ao cemitério em 1906. Tornou-se paróquia em 1912 e foi tombada pelo Estado em 1988.
Catedral Metropolitana de Nossa Senhora da Conceição (Matriz)
Remonta a uma capela de taipa e palha de 1695, erguida por missionários carmelitas. Destruída por incêndio em 1850, foi reconstruída em pedra e abençoada em 15 de agosto de 1877. No Ciclo da Borracha, era o principal templo da cidade.
Capela do Cemitério São João Batista
Mandada construir pelo superintendente Adolpho Lisboa e inaugurada em 30 de outubro de 1906, a capela gótica é hoje o coração das celebrações de Finados no cemitério mais antigo em funcionamento na cidade.
3. Os cemitérios e suas histórias
Manaus tem hoje dez cemitérios públicos, entre zona urbana e rural. Três deles marcam a história do Ciclo da Borracha; os demais acompanham o crescimento da cidade no século XX.
| Cemitério | Período | O que marcou |
| Remédios ou da Cruz | 1854–1856 | Necrópole provisória ao lado da Igreja dos Remédios, nas atuais ruas Leovegildo Coelho e dos Andradas. |
| São José | 1856–1891 | Aberto às pressas na epidemia; primeiro sepultamento em 7/3/1856. Deu nome ao Largo da Saudade. Hoje, no terreno, fica o Atlético Rio Negro Clube. |
| São Raimundo | 1888–1891 | Funcionou poucos anos; restos mortais foram levados ao ossuário do São João Batista. |
| São João Batista | desde 1891 | Inaugurado em 5/4/1891; primeira sepultada foi uma menina de 1 ano, Maria. Mais de 19 mil sepulturas. Tombado como patrimônio do Amazonas. |
| N. Sra. da Piedade (Cariri) | desde 1901 | Menor cemitério da área urbana, no Tarumã. |
| São Francisco | desde 1908 | Morro da Liberdade; cerca de 8.500 sepulturas e 34 mil inumados. |
| Santo Alberto | desde 1910 | Criado pelas missionárias da leprosaria do Aleixo. |
| Santa Helena | desde 1933 | Criado porque o São Raimundo não tinha acesso por terra ao São João Batista. |
| N. Sra. Aparecida (Tarumã) | desde 1976 | Único aberto a novas sepulturas; 105 hectares e 90 quadras. |
| Rurais (Lajes, Carmo, Puraquequara, Jatuarana) | 1870–1906 | Às margens dos rios; o das Lajes só é acessível por barco. |
São José: o cemitério que virou clube
Em 7 de março de 1856, o São José recebeu seu primeiro morto. A praça em frente passou a ser chamada pelo povo de Largo da Saudade. Fechado em 1891, ainda teve os mausoléus transferidos para o São João Batista a partir de 1926. Sob o Atlético Rio Negro Clube estão os vestígios do principal cemitério da Manaus imperial.
São João Batista: a necrópole da borracha
O terreno, no antigo bairro do Mocó (hoje Nossa Senhora das Graças), foi escolhido em 1890. Apenas seis anos depois da inauguração, engenheiros sanitaristas já pediam seu fechamento: ele estava sobre nascentes de igarapés e perto do encanamento que abastecia a cidade. Uma lei de 1897 mandou encerrá-lo, mas isso nunca ocorreu na prática. Em 1903, Adolpho Lisboa optou por ampliar a área e iniciar exumações. Em 1905 vieram os muros, gradis e portões de ferro; em 1906, a capela.
Tarumã: o campo santo da Zona Franca
Nos anos 1970, com a explosão populacional da Zona Franca, os cemitérios estavam lotados. Em setembro de 1975, restavam apenas 60 vagas no São Francisco, e o prefeito Jorge Teixeira mandou abrir às pressas uma quadra no terreno do Tarumã. O primeiro sepultamento, em agosto de 1976, foi de Raimunda Alexandre, indígena waimiri-atroari. Desde 1983, as novas sepulturas da cidade se concentram ali.
4. Quantos morriam antes e quantos morrem agora
A comparação mais segura é a taxa por mil habitantes. Mesmo considerando só a malária, a mortalidade de 1900 era cerca de seis vezes a mortalidade atual por todas as causas.
| Ano | População de Manaus | Óbitos registrados | Óbitos por mil habitantes |
| 1898 | ≈ 45 mil (estimativa) | 1.074 só por malária | ≈ 24 (só malária) |
| 1900 | 50.300 (censo) | 1.495 só por malária | ≈ 30 (só malária) |
| 2021 (pandemia) | ≈ 2,2 milhões | 18.728 (todas as causas) | ≈ 8,5 |
| 2024 | ≈ 2,3 milhões | 12.282 (todas as causas) | ≈ 5,3 |
Notas: a população de 1898 é interpolada entre os censos de 1890 (38.720) e 1900 (50.300). Os números de malária vêm dos boletins do médico Alfredo da Matta (1916), citados por pesquisa da UFAM. Os de 2021 e 2024 são do Sistema de Informações sobre Mortalidade, por residência, publicados pela Semsa.
A epidemia de 1900 foi recorde por 120 anos. Os 1.495 óbitos por malária de 1900 foram, segundo a pesquisa histórica, a maior epidemia em número de mortes na Manaus republicana até 2020, quando foram superados pela Covid-19. Em 2021, as doenças infecciosas, puxadas pela Covid, somaram 7.313 mortes de residentes.
Quem morre hoje. Em 2024, as principais causas foram doenças do aparelho circulatório (2.560 mortes), câncer (2.197) e causas externas como violência e trânsito (1.526). As doenças infecciosas, que dominavam no Ciclo da Borracha, caíram para 875.
Quem visita. Em anos recentes, a Prefeitura estimou de 500 mil a 600 mil visitantes nos cemitérios públicos no Dia de Finados. Só na véspera de um desses anos, foram mais de 150 mil.
Pendente: o total de óbitos por todas as causas no Ciclo da Borracha (1890–1912) não foi localizado nesta apuração. A fonte indicada são os Relatórios da Junta de Higiene e as Mensagens dos Governadores, no Arquivo Público do Amazonas e no IGHA. A estimativa oficial de visitantes para 2026 também deve ser confirmada com a Semulsp.
5. Fé popular, santos de cemitério e lendas
Santa Etelvina, a “santa dos estudantes”
Etelvina D’Alencar nasceu em 1884 no Ceará e vivia com a mãe e as irmãs na Colônia Campos Salles. Em março de 1901, um ex-noivo, José, matou três homens e depois a jovem, na mata próxima. Segundo relatos populares, o corpo foi achado cinco dias depois intacto, o que deu início à devoção.
Etelvina nunca foi canonizada pelo Vaticano, mas recebe pedidos e ex-votos, como cadernos e placas de estudantes aprovados. Em 1964, a Prefeitura construiu seu mausoléu no São João Batista, hoje um dos túmulos mais visitados no feriado. Desde 1984, a antiga colônia se chama bairro Santa Etelvina, na Zona Norte.
Outros túmulos de memória
No mesmo cemitério está o mausoléu de Ária Ramos, com a figura da jovem em tamanho natural segurando seu violino, outro ponto de visitação e estudo da arte tumular manauara.
6. Checagem do rascunho original
Pontos do texto-base, conferidos com as fontes desta apuração:
| Afirmação do rascunho | Situação | O que as fontes dizem |
| São João Batista inaugurado em 1891 e tombado | Confirmado | Inaugurado em 5/4/1891; tombado pelo Estado. |
| Capela neogótica de 1906, por ordem de Adolpho Lisboa | Confirmado | Inaugurada em 30/10/1906. |
| Ferro e vitrais importados da Europa; portões da Escócia | A verificar | Fontes citam gradis e portões de ferro de 1905, sem confirmar a origem escocesa. |
| Santa Etelvina assassinada em 1901 | Confirmado | Março de 1901; mausoléu de 1964. |
| Remédios: capela de 1818 erguida exatamente sobre cemitério indígena | Ajustar | 1818 é o ano do imposto para a obra. O cemitério indígena documentado fica atrás da igreja (Praça D. Pedro II); o entorno foi cemitério público de 1854 a 1856. |
| Remédios ganhou estrutura neoclássica no início do séc. XX | Ajustar | Obra de 1901 a 1927; inaugurada em 11/9/1927. |
| São Sebastião inaugurada em 1888 | Confirmado | 7/9/1888. |
| Procissão de 1º/11/1906 da imagem de São João Batista | Confirmado | Da Igreja de São Sebastião à nova capela. |
| Tarumã: túmulo de duas amigas mortas por namorado ciumento | A verificar | Não localizado em fonte publicada; checar com a administração do cemitério e o arquivo de jornais. |
| Missas campais presididas pelo arcebispo | A verificar | Confirmar a programação de 2026 com a Arquidiocese de Manaus. |
Fontes
- Conheça a história da origem de 10 cemitérios de Manaus — Portal Amazônia, 2022, com base em Durango Duarte
- Templos de fé: as histórias de seis igrejas famosas em Manaus — Portal Amazônia, 2022
- Santa Etelvina: relembre a história da santa dos estudantes — Portal Amazônia, 2021
- Abaixo do Atlético Rio Negro Clube existe um cemitério — Portal Amazônia
- Cemitérios antigos: 4 lugares que já foram cemitérios em Manaus — Portal Amazônia
- Na trilha do Anopheles: combate à malária em Manaus (1897–1920) — Márcio de Carvalho e Silva, dissertação UFAM, 2021
- Os mortos e suas moradas na terra dos barés (1848–1859) — Fábio Pedrosa, UFAM, 2021
- Laborum Meta: arte e sociedade no Cemitério de São João Batista — Barbosa e Pedrosa, Revista M., 2024
- Relatório Anual de Gestão 2025 — Semsa Manaus — mortalidade 2021–2024 e população 2025
- Manaus — população nos censos (Wikidata/IBGE) — 1890, 1900 e 1920
- Mais de 500 mil pessoas esperadas nos cemitérios de Manaus — Portal Amazônia
