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Obesidade já atinge 11 milhões de adultos atendidos nos postos do SUS; prato do brasileiro ajuda a explicar a escalada

Pela primeira vez, obesos superam pessoas com sobrepeso no registro da atenção primária. Sete em cada dez adultos acompanhados estão acima do peso; Sul e Sudeste lideram, mas o problema já é nacional

O Brasil chegou a um marco preocupante na saúde pública. Hoje, 11,12 milhões de adultos com obesidade são acompanhados nas unidades básicas de saúde do SUS, segundo o Sisvan (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional), do Ministério da Saúde. Em 2016, eram 3,09 milhões — um salto de 259% em dez anos. Os dados foram divulgados pela Folha de S.Paulo.

Mais do que o volume absoluto, chama atenção a proporção: 36,4% dos adultos registrados no sistema têm obesidade, contra 25,1% em 2016. E, pela primeira vez na série, o número de obesos (11,12 milhões) ultrapassou o de pessoas com sobrepeso (10,76 milhões). Somadas, as duas condições alcançam 21,88 milhões de brasileiros — 71,5% de todos os adultos acompanhados na rede básica.

Quantos são

Indicador (adultos no Sisvan)20162026Variação
Pessoas com obesidade (IMC ≥ 30)3,09 milhões11,12 milhões+259%
Pessoas com sobrepeso (IMC 25 a 29,9)4,19 milhões10,76 milhões+156,8%
Total com excesso de peso7,28 milhões21,88 milhões+200%
Taxa de obesidade entre os acompanhados25,1%36,4%+11,3 p.p.

Fonte: Sisvan/Ministério da Saúde, conforme reportagem da Folha de S.Paulo. Total de 2016 e variação somados pela redação.

Fora do SUS, o retrato aponta na mesma direção. O Vigitel, inquérito telefônico do Ministério da Saúde feito nas capitais, mostra que a obesidade entre adultos passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024, e que 62,6% estão com excesso de peso. A meta oficial do país era manter a obesidade em 20,3% (nível de 2019) até 2030 — patamar ultrapassado já em 2020.

Como e por que eles chegam ao SUS

O Sisvan não é um censo da população, e sim o registro de quem passa pela atenção primária. Os números nascem de um gesto simples: a pesagem e a medição de altura feitas nas UBSs (unidades básicas de saúde) durante consultas de rotina, no acompanhamento de doenças crônicas, no pré-natal e nas condicionalidades de saúde de programas sociais como o Bolsa Família. Para a maior parte dos brasileiros de menor renda, que não tem plano de saúde, o posto do bairro é a única porta de entrada para o cuidado.

Na prática, muita gente chega ao SUS não por causa do peso, mas pelas suas consequências. A obesidade é uma doença crônica, inflamatória e multifatorial, associada a mais de 240 enfermidades — entre elas diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardíacas e diversos tipos de câncer — e reduz a expectativa de vida. É no controle da pressão ou da glicemia que o excesso de peso costuma ser registrado.

Uma ressalva importante: parte do aumento de 259% reflete a expansão do próprio registro, já que mais pessoas passaram a ser pesadas e cadastradas ao longo da década. O indicador que melhor mostra o agravamento real é a taxa — de 25,1% para 36,4% dos adultos acompanhados — que cresceu independentemente do tamanho da base.

Uma vez dentro do sistema, porém, o paciente encontra uma rede pouco preparada. O endocrinologista Bruno Halpern, presidente da Federação Mundial da Obesidade e vice-presidente da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica), aponta os principais gargalos:

  • Sem protocolo único: falta uma linha de tratamento clínico padronizada e abrangente para o excesso de peso na rede pública.
  • Remédios escassos: medicamentos para obesidade não estão disponíveis de forma regular no SUS.
  • Cirurgia só para os casos graves: a bariátrica é indicada apenas para obesidade grave, deixando a maioria sem opção terapêutica, e o acesso varia por região, com filas de tamanhos e prazos diferentes.
  • Pós-operatório frágil: mesmo operados enfrentam falta de suplementos polivitamínicos essenciais.
  • Pouca formação: profissionais de saúde recebem pouca capacitação sobre obesidade; há experiências bem-sucedidas isoladas, mas nada estrutural.

Raio-x regional

Em 24 das 27 unidades da Federação, os adultos com obesidade atendidos na atenção básica já são mais numerosos do que os que estão com peso adequado. Em 18 estados, ao menos 70% dos acompanhados apresentam excesso de peso.

RegiãoEstado / cidadeObesidadeExcesso de peso
SulRio Grande do Sul (líder nacional)42,6%75,9%
SudesteSão Paulo40,5% (1,74 milhão)74,3%
SudesteRio de Janeiro40,1% (759,2 mil)—
SudesteMinas Gerais34,6% (1,16 milhão)—
NordesteBahia31,9% (735,3 mil)—
NordesteRio Grande do Norte—75,5% (maior do país)
NorteAmapá—74,5%
Centro-OesteGoiânia (GO)35,7%—
BrasilMédia nacional36,4%71,5%

Fonte: Sisvan/Ministério da Saúde (2026), via Folha de S.Paulo; Goiânia: Sisvan, via portal Mais Goiás. “—”: dado não divulgado no recorte. A tabela completa por estado e município pode ser extraída dos relatórios públicos do Sisvan.

Nas capitais. O Vigitel permite comparar as capitais com toda a população adulta, e não só a atendida no SUS. No recorte mais recente com ranking por cidade, Macapá liderava, seguida de Porto Alegre e Fortaleza. O dado mostra que a obesidade não é exclusividade das regiões mais ricas: Norte, Nordeste e Centro-Oeste aparecem no topo.

CapitalRegiãoObesidade em adultos
Macapá (AP)Norte30,4%
Porto Alegre (RS)Sul28,3%
Fortaleza (CE)Nordeste27,7%
Cuiabá (MT)Centro-Oeste27,2%
Manaus (AM)Norte27,0%
Campo Grande (MS)Centro-Oeste27,0%
Recife (PE)Nordeste26,3%
Conjunto das capitais—24,3%

Fonte: Vigitel 2023, Ministério da Saúde. Os valores do Vigitel são menores que os do Sisvan porque medem a população geral das capitais, não apenas quem é atendido na rede básica.

Por que chegamos a esse ponto: o brasileiro come mal

Especialistas são unânimes em dizer que a obesidade não se explica apenas por escolha individual. Mas o prato mudou — e muito. Pesquisas do Nupens (Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde), da USP, mostram que a participação dos ultraprocessados na dieta nacional mais que dobrou desde os anos 1980, de cerca de 10% para 23% das calorias. São produtos como refrigerantes, salgadinhos de pacote, biscoitos recheados, embutidos, macarrão instantâneo e refeições prontas congeladas.

  • Ultraprocessado mais barato: esses produtos têm sofrido inflação menor que a dos alimentos frescos, o que empurra famílias de menor renda para eles.
  • Pouca fruta e verdura: só cerca de um terço dos adultos das capitais (31,9%) consome frutas e hortaliças com regularidade.
  • Excesso diário: 17,7% disseram ter ingerido cinco ou mais grupos de ultraprocessados no dia anterior à entrevista do Vigitel.
  • Mapa desigual: o consumo é maior em cidades urbanas e de renda mais alta. Em Florianópolis, ultraprocessados respondem por 30,5% das calorias; em Porto Alegre, 26,6%; em Curitiba, 26,3%. A média nacional é de 20,2%. O padrão ajuda a entender a liderança do Rio Grande do Sul no Sisvan.
  • Outros fatores: sedentarismo, estresse, uso de telas e sono ruim também pesam — o Vigitel 2025 mostrou que 20,2% dos adultos das capitais dormem menos de seis horas por noite.

O custo vai além da balança: estudo de USP, Fiocruz e Unifesp estima que cerca de 57 mil mortes prematuras por ano no país estão ligadas ao consumo de ultraprocessados.

Como corrigir

Para Halpern, o enfrentamento exige duas frentes ao mesmo tempo: prevenção, com políticas que estimulem a comida de verdade e desestimulem os ultraprocessados, e tratamento, com redes de cuidado eficazes para quem já vive com a doença. “Sabemos que a obesidade cresce e continuará subindo no Brasil. O que tentaremos fazer é que essa curva seja menos pronunciada”, diz ele.

No dia a dia, o Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, oferece um caminho simples:

  • Fazer de alimentos in natura ou minimamente processados (arroz, feijão, legumes, verduras, frutas, ovos, carnes, leite) a base da alimentação.
  • Usar óleo, sal e açúcar em pequenas quantidades ao cozinhar.
  • Limitar processados e evitar ultraprocessados, lendo rótulos e observando a lupa de advertência frontal.
  • Cozinhar mais em casa, comer em horários regulares, devagar e, sempre que possível, em companhia.
  • Trocar refrigerante e suco de caixinha por água; preferir frutas como lanche.
  • Somar atividade física regular e cuidar do sono.

Nas políticas públicas, o país já tem uma vitrine: o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), citado internacionalmente, determinou que até 2026 90% dos alimentos servidos nas escolas sejam frescos ou minimamente processados. Pesquisadores defendem ainda taxar ultraprocessados, subsidiar alimentos frescos, regular a publicidade de comida, especialmente a dirigida a crianças, e ampliar o acesso a feiras e hortifrútis em bairros pobres.

No SUS, o desafio é transformar o registro em cuidado: criar linhas de cuidado com protocolo nacional, capacitar profissionais, garantir medicamentos e suplementos, reduzir as filas da bariátrica e fortalecer equipes multiprofissionais na atenção primária, com nutricionistas, educadores físicos e psicólogos.

O problema é global

No 16º Congresso Latino-Americano de Obesidade, realizado de 28 a 31 de outubro em Salvador, Halpern apresentou dados do estudo MAPPS II, da Federação Mundial da Obesidade, que avalia políticas e tratamento em vários países. Os governos receberam notas de apenas 1 a 3, numa escala até 10, para o apoio financeiro ao tema. Sem verba pública, o tratamento acaba pago pelo próprio paciente, o que exclui os mais pobres, sobretudo em países em desenvolvimento. O estudo também aponta falta de equipes multidisciplinares, pouca integração entre as áreas de saúde, educação e economia e preconceito contra pessoas com obesidade, inclusive entre profissionais de saúde. Os resultados completos saem em 4 de março de 2027, Dia Mundial da Obesidade, e um relatório específico sobre o Brasil deve ser divulgado ao longo do ano que vem.

ENTENDA O IMC

O índice de massa corporal é o peso (kg) dividido pelo quadrado da altura (m). Exemplo: 85 kg ÷ (1,70 × 1,70) = 29,4. De 18,5 a 24,9: peso adequado. De 25 a 29,9: sobrepeso. 30 ou mais: obesidade. Sobrepeso e obesidade juntos formam o chamado excesso de peso.

Fontes

  • Folha de S.Paulo — reportagem com dados do Sisvan/Ministério da Saúde (2026)
  • Ministério da Saúde — Vigitel Brasil 2006-2024 e Vigitel 2023/2025
  • Nupens/USP — estudos sobre consumo de ultraprocessados (Revista de Saúde Pública, 2025; série The Lancet, 2025)
  • USP/Fiocruz/Unifesp — estudo sobre mortes prematuras atribuídas a ultraprocessados
  • Ministério da Saúde — Guia Alimentar para a População Brasileira
  • Federação Mundial da Obesidade — estudo MAPPS II
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