De Maués para a Esplanada: Sidney Leite é o nome do PSD para o Ministério da Pesca e coloca o Amazonas no primeiro escalão de Lula
Seja no ministério ou na Secretaria de Educação do governo Omar Aziz, a ascensão do deputado abre a vaga para Átila Lins, primeiro suplente, assumir a titularidade na Câmara e iniciar o 10º mandato como decano da Casa

O GANCHO: UM AMAZONENSE NA PARTILHA
O PSD quer ampliar sua presença no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — e a nova cadeira pode ter sotaque amazonense. Emissários do partido comunicaram a interlocutores do Planalto que pretendem manter André de Paula no Ministério da Agricultura e Pecuária e indicar um novo titular para o Ministério da Pesca e Aquicultura. O favorito para a pasta é o deputado federal Sidney Leite (PSD-AM).
A indicação, se confirmada, coloca um parlamentar do Amazonas no primeiro escalão federal e reforça o peso da bancada da Câmara dentro do partido de Gilberto Kassab, responsável por todas as indicações ministeriais da legenda nesta rodada.
QUEM É SIDNEY LEITE
Natural de Maués, a terra do guaraná, no interior do Amazonas, Sidney Leite foi o deputado mais votado do PSD amazonense nas eleições de 2026. Na bancada, é reconhecido pelo perfil governista — atributo que pesa a seu favor num momento em que os deputados da sigla se tornaram mais relevantes para o Planalto por terem viés mais próximo de Lula do que outros partidos do centrão.
A escolha também dialoga com a lógica interna do PSD: a ala de deputados, liderada por Antônio Brito (PSD-BA), entende que a nova correlação de forças do partido deve se refletir na Esplanada.
O QUE SIDNEY COMANDARIA NA PESCA
O Ministério da Pesca e Aquicultura é responsável pela política nacional do setor: o Registro Geral da Pesca (RGP), documento que identifica pescadores, marisqueiras e aquicultores e é requisito para acesso a benefícios como o seguro-defeso; o ordenamento e o monitoramento da atividade pesqueira; o fomento à aquicultura; e a infraestrutura de apoio, como terminais e entrepostos.
Para o Amazonas e a Amazônia, a pasta tem peso estratégico. A região concentra a maior bacia hidrográfica do planeta e uma enorme população ribeirinha que depende da pesca para renda e alimentação. Um ministro amazonense pode dar prioridade a temas como o manejo sustentável do pirarucu, a expansão da piscicultura de espécies nativas como o tambaqui, a regularização de pescadores artesanais no interior, a logística de escoamento do pescado e a fiscalização contra a pesca predatória — conciliando geração de renda e conservação da floresta e dos rios.
O PLANO ESTADUAL: A SEDUC DE OMAR AZIZ
Antes mesmo de despontar na lista do PSD para a Esplanada, Sidney Leite já frequentava o noticiário de sites manauaras como provável nome para comandar a Secretaria de Estado de Educação (Seduc) no futuro governo de Omar Aziz, recém-eleito governador do Amazonas.
À frente da Seduc, o deputado administraria uma das maiores redes de ensino da Região Norte, com desafios próprios de um estado de dimensões continentais: escolas espalhadas por municípios acessíveis apenas por via fluvial, transporte escolar pelos rios, ensino mediado por tecnologia para comunidades isoladas, valorização dos professores e melhoria dos indicadores de aprendizagem. Seria, portanto, uma contribuição direta ao Amazonas por outra via.
O EFEITO DOMINÓ: ÁTILA LINS DE VOLTA À CÂMARA
Qualquer que seja o destino de Sidney Leite — Brasília ou Manaus —, sua saída do mandato produz o mesmo efeito: abre espaço para Átila Lins, primeiro suplente do PSD no Amazonas. Nome da velha guarda do partido, Átila não conseguiu se reeleger em 2026, mas voltaria à Câmara na condição de titular.
Advogado e economista, Átila Lins iniciaria seu 10º mandato como deputado federal pelo Amazonas, recuperando o posto de decano da Câmara dos Deputados — o parlamentar com mais tempo de Casa. Para o estado, significa reaver na bancada um interlocutor experiente, com longo trânsito nos corredores do Congresso.
A PARTILHA DA ESPLANADA
O movimento do PSD ocorre no momento em que o PT abriu as negociações para dividir os ministérios do próximo governo. A tarefa foi delegada ao presidente do partido, o deputado eleito Edinho Silva, que tem pedido aos dirigentes das demais siglas propostas e estimativas de votos que poderão entregar ao governo. Os dados serão levados a Lula e servirão de base para os convites. Kassab já foi procurado.
O PSD tenta capitalizar um gesto político: foi o único partido do centrão que não apoiou Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno contra Lula. No Planalto, a avaliação é de que a legenda deve ser privilegiada, embora o presidente ainda não tenha dado sinais claros. Kassab, por sua vez, se aproximou do governo após se afastar do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), cotado para a disputa presidencial de 2030.
Os números ajudam a explicar a estratégia. A bancada do PSD na Câmara passou de 42 deputados eleitos em 2022 para 43 em 2026, enquanto no Senado encolheu de 14 para 5 cadeiras. Por isso, a ala da Câmara defende que o comando da Agricultura passe de um nome ligado ao Senado para um ligado aos deputados — André de Paula, ex-deputado, assumiu a pasta após a saída do senador Carlos Fávaro.
INDEFINIÇÕES
Um terceiro ministério para o PSD ainda é incerto. O partido tem hoje, além de Agricultura e Pesca, o Ministério de Minas e Energia, com Alexandre Silveira — mas a sigla já não o reconhece como indicação própria e o trata como escolha pessoal de Lula. Outro nome do PSD cotado para a equipe é o ex-prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes, que enfrenta resistência de uma ala do PT por não ter apoiado o presidente com entusiasmo na disputa pelo governo fluminense, que perdeu para Douglas Ruas (PL).
Para o Amazonas, a equação é favorável em qualquer cenário: se Sidney Leite for para o ministério, o estado ganha voz na Esplanada; se for para a Seduc, reforça a gestão de Omar Aziz. Em ambos os casos, Átila Lins volta à Câmara Federal.
