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O banco que derrubou um presidente

O colapso do Ueno Bank congelou o dinheiro de quase metade da população do Paraguai, levou Santiago Peña à renúncia e acendeu o alerta entre as centenas de empresas brasileiras que atravessaram a fronteira em busca de impostos baixos

Reportagem  •  Atualizada em 6 de novembro de 2026, 6h30 (horário de Manaus)

Santiago Peña anunciou a renúncia em vídeo publicado nas redes sociais na quinta-feira (5), enquanto a Câmara dos Deputados votava seu impeachment. Crédito:Larazon

Em menos de 72 horas, o Paraguai passou de vitrine de estabilidade a epicentro de uma crise financeira e institucional. Na noite de segunda-feira (2), o Banco Central do Paraguai (BCP) decidiu intervir no Ueno Bank, o maior banco digital do país. Na terça (3), clientes acordaram sem acesso a aplicativo, cartões e saldo. Na quarta (4), executivos do banco chegaram presos à promotoria anticorrupção, enquanto protestos tomavam Assunção. Na quinta (5), o presidente Santiago Peña anunciou que deixaria o cargo — horas antes de a Câmara aprovar seu impeachment.

A renúncia, porém, não encerrou a crise. O Congresso não aceitou o pedido, e o julgamento político segue no Senado nesta sexta-feira (6). Do lado brasileiro, empresários, exportadores e comerciantes da fronteira tentam medir o tamanho do estrago num país que, nos últimos anos, se tornou destino preferencial de indústrias que fugiam dos custos do Brasil.

1. A raiz do problema: um banco que cresceu rápido demais

A história do Ueno começa em 2021, quando o Grupo Vázquez, que já controlava a financeira Credicentro, comprou a Financiera El Comercio. A partir daí, a instituição saiu da obscuridade para se tornar marca conhecida em todos os lares paraguaios em menos de cinco anos, segundo a Associated Press.

O crescimento foi vertiginoso. O Ueno se tornou o quinto maior banco do país em depósitos, com 2,9 milhões de clientes num país de 6,1 milhões de habitantes — o equivalente a cerca de 60% da população adulta. Em setembro de 2026, guardava cerca de US$ 2,84 bilhões, de acordo com a Superintendência de Bancos. Em março, havia feito a maior emissão de títulos corporativos da história paraguaia.

O que alimentou esse salto também explica a queda. Durante o governo Peña, o banco passou a receber volume expressivo de dinheiro público. O próprio presidente do Ueno, Juan Manuel Gustale, admitiu no mês passado que recursos estatais representavam cerca de um quarto dos depósitos. Estimativas apontam entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões de órgãos do Estado sob gestão do banco — incluindo algo entre US$ 355 milhões e US$ 380 milhões do Instituto de Previsión Social (IPS), responsável por aposentadorias e saúde dos trabalhadores.

O que o Banco Central encontrou

Uma investigação do BCP identificou créditos concedidos a empresas ligadas ao próprio Grupo Vázquez, controlador do banco. Após ajustes nas demonstrações financeiras, o índice de solvência caiu para 5,56% — menos da metade do mínimo regulatório de 12%. A diretoria do BCP votou por unanimidade abrir o procedimento de resolução bancária, congelou ativos e passivos e enviou interventores. Na véspera, o Ueno afirmava que operava normalmente.

Os laços com o poder

Dois fios ligam o banco ao Palácio de López. O primeiro: Peña foi sócio de negócios do Grupo Vázquez até março de 2025. O banco sustenta que ele nunca foi acionista nem investidor, e o ex-presidente nega irregularidades. O segundo: Peña nomeou para o comando do BCP Carlos Carvallo, ex-presidente da Financiera Ueno, antecessora do banco. O BC diz que Carvallo se absteve de todas as decisões envolvendo a instituição; ainda assim, ele entregou o cargo a pedido de Peña na terça-feira (3).

2. Raio-X: o que está acontecendo agora

IndicadorDado
Clientes afetadosCerca de 2,9 milhões (≈60% dos adultos)
Depósitos no Ueno (set/2026)US$ 2,84 bilhões
Participação no sistema (dez/2025)8,9% dos depósitos e 5,9% dos empréstimos
Índice de solvência5,56% (mínimo legal: 12%)
Fundos públicos no bancoUS$ 800 a 850 milhões
Exposição do IPS (previdência)US$ 355 a 380 milhões
Garantia de depósitosAté 228 milhões de guaranis (≈ US$ 38 mil) por pessoa
Depositantes cobertos pela garantia≈ 97% (estimativa preliminar do BCP)
Frente judicial8 executivos detidos; 27 imputados; 3 processos penais abertos pela Procuradoria contra Peña e ex-autoridades

Linha do tempo

DataFato
Seg, 2/novDiretoria do BCP aprova por unanimidade a resolução do Ueno Bank
Ter, 3/novIntervenção é anunciada; clientes ficam sem acesso a contas; Peña cancela viagem à Espanha e pede a renúncia do presidente do BC, Carlos Carvallo
Qua, 4/novExecutivos do banco são levados à promotoria anticorrupção; protestos e confrontos com a polícia em Assunção
Qui, 5/novRebelião dentro do Partido Colorado; Peña anuncia renúncia em vídeo; Câmara aprova o impeachment e rejeita processo contra o vice Pedro Alliana (48 a 30)
Sex, 6/novSenado retoma o julgamento político às 10h (Assunção), com a defesa de Peña

O Banco Central insiste que se trata de um caso isolado, e não de uma fragilidade generalizada do sistema financeiro. A associação de bancos (Asoban) afirmou não ver sinais de saques em massa em outras instituições, e operadores do mercado lembram que o Ueno já era visto como uma gestão controversa, o que deixou os demais bancos preparados. A devolução dos depósitos garantidos já começou. Os mercados, porém, reagiram: os títulos soberanos paraguaios caíram após a notícia da renúncia, num país que havia conquistado recentemente, pela primeira vez, o grau de investimento.

3. A crise política: renúncia sem saída

Peña, economista com passagem pelo Banco Central e pelo FMI, ex-ministro da Fazenda de Horacio Cartes e aliado de Donald Trump, assumiu em agosto de 2023 com mandato até agosto de 2028. Durante três dias, minimizou os alertas. Na quinta-feira, com a própria base colorada em revolta aberta, gravou um vídeo: “Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República.” Pediu desculpas, mas não assumiu responsabilidade pela crise bancária e disse sair para preservar a estabilidade e as instituições.

A manobra esbarrou na Constituição. Cabe ao Congresso aceitar ou rejeitar a renúncia — e a sessão bicameral convocada para analisá-la terminou travada, após deputados colorados deixarem o plenário. Enquanto isso, a Câmara aprovou o impeachment e o caso seguiu ao Senado. Para destituir Peña, são necessários ao menos 30 dos 45 senadores.

Por que a forma da saída importa

A diferença entre renunciar e ser condenado não é apenas simbólica. Pelo artigo 189 da Constituição, ex-presidentes eleitos democraticamente tornam-se senadores vitalícios, com voz e sem voto — com proteções e imunidades associadas. Quem é condenado em julgamento político perde esse direito. Por isso, manifestantes cercaram o Congresso pedindo que a renúncia fosse recusada. Peña confirmou que comparecerá ao Senado para se defender e o governo desmentiu rumores de fuga.

Quem assume

O vice Pedro Alliana, 52 anos, ex-presidente da Câmara e ex-presidente do Partido Colorado, é o sucessor constitucional. Ele escapou de um pedido de impeachment próprio na Câmara (30 votos a favor, 48 contra) e, segundo constitucionalistas, assume imediatamente se o Senado condenar Peña, completando o mandato até 2028. O Congresso terá ainda de escolher um novo vice. Alliana herda um sistema financeiro sob tensão, protestos nas ruas e um partido dividido — no início da crise, ele havia suspendido sua pré-candidatura presidencial.

Peña é o segundo presidente paraguaio a renunciar desde a redemocratização. A crise remete ainda a 2012, quando Fernando Lugo foi destituído pelo Senado em julgamento político relâmpago.

4. Como a crise atinge o Brasil

Não há risco de contágio bancário no Brasil, e o consumidor brasileiro sem contas ou negócios no Paraguai não tem indicação de impacto direto. Mas o Brasil é, de longe, o país estrangeiro mais exposto ao vizinho — e a crise atinge justamente o argumento que atraiu as empresas brasileiras: a previsibilidade.

A migração industrial

Atraídas pelo regime de maquila, que oferece tributação reduzida para produção voltada à exportação, além de energia barata e encargos menores, mais de 200 empresas brasileiras transferiram parte das operações ao Paraguai desde 2007. Levantamento de julho de 2026 contava ao menos 179 empresas de capital brasileiro sob o regime, e companhias brasileiras representavam 69% das indústrias com programas de maquila ativos. Marcas como Karsten e Lupo estão entre as que operam no país.

O fluxo é de mão dupla: de janeiro a setembro de 2026, as exportações sob maquila somaram US$ 1,148 bilhão, alta de 25% sobre 2025, e o Brasil recebeu 62% dessas vendas no primeiro semestre.

ONDE O IMPACTO PODE APARECER ▸ Capital de giro: empresas com dinheiro bloqueado no Ueno podem atrasar salários, pagamentos a fornecedores e encomendas. ▸ Fronteira: Foz do Iguaçu/Ciudad del Este e Ponta Porã/Pedro Juan Caballero dependem do consumo paraguaio; o bloqueio de recursos reduz compras e afeta fornecedores brasileiros. ▸ Quem vende ao consumidor paraguaio sente mais do que quem só produz para exportar ao Brasil. ▸ Confiança: novos investimentos podem ser adiados até que o novo governo dê garantias. ▸ Mercado: queda dos títulos soberanos pode encarecer crédito no país.

Dois diagnósticos

Especialistas ouvidos pela imprensa brasileira divergem no tom. O consultor tributário Altair Toledo, que assessora empresas na mudança para o Paraguai, avalia que o efeito sobre as indústrias deve ser baixo: a troca de comando não altera os incentivos, e muitas operam com recursos próprios ou captados no Brasil — haverá burocracia e algum impacto operacional, mas não na produção. Já o especialista em Direito Internacional Wiliander Salomão vê quebra de confiança e defende que as novas autoridades ofereçam garantias de estabilidade para evitar saída de empresas e capitais.

Até agora, reportagens não confirmam prejuízos diretos relevantes para empresas brasileiras, mas há casos individuais: um empresário brasileiro relatou perda superior a R$ 200 mil. Em Goiás, a Secretaria de Indústria e Comércio classifica o impacto como limitado e concentrado em quem tem operações financeiras ou comerciais na fronteira.

A lição do ‘oásis fiscal’

Para o colunista Luiz Carlos Azedo, do Estado de Minas, a crise desfaz a ideia de que bastaria cruzar a fronteira para encontrar impostos baixos e segurança permanente: o custo que não estava nas planilhas era o risco institucional. A comparação com o caso do Banco Master, no Brasil, tem sido recorrente — a imprensa já chama o episódio de “Master paraguaio”.

Contexto diplomático

A crise chega num momento delicado das relações bilaterais. Em julho, o governo Peña convocou o embaixador brasileiro e entregou nota de repúdio após declarações de Lula sobre a Guerra do Paraguai. Uma eventual troca para Alliana, também colorado, tende a manter a linha política, mas abre espaço para reaproximação. Temas estruturais como Itaipu, segurança na fronteira e Mercosul seguem na mesa.

5. O que observar nos próximos dias

  • Votação no Senado: se houver 30 votos, Peña é condenado e perde a vaga vitalícia; Alliana assume de imediato.
  • Ritmo da devolução dos depósitos: a velocidade dos pagamentos garantidos definirá o humor das ruas e do comércio de fronteira.
  • Fundos do IPS: a recuperação dos recursos previdenciários é o ponto mais sensível politicamente.
  • Sinais do novo governo: manutenção da lei de maquila e dos incentivos ao investimento estrangeiro.
  • Agências de rating: qualquer revisão do grau de investimento recém-conquistado afetaria custo de capital no país.
  • Frente judicial: avanço dos processos contra Peña, executivos do Ueno e do Grupo Vázquez.

Fontes consultadas

  • Associated Press (via ABC News, NBC) — intervenção e renúncia, 3 e 5/nov/2026
  • Reuters (via NBC News, Al Jazeera, The Star) — Congresso, impeachment, títulos soberanos
  • CNN — processos penais e imunidade, 5/nov/2026
  • Bloomberg / Bloomberg Línea — queda do Ueno e do presidente do BC
  • Infobae, La Nación (AR), La Gaceta, Cadena 3 — números do Ueno, IPS e solvência
  • La Nación (PY), El Diario (AR), MDZ, Minuto Uno — sucessão e votações no Congresso
  • Times Brasil / CNBC, Diário do Pará, 4oito, Itaponews, Jornal Opção, Folha de Curitiba — impactos para o Brasil
  • Estado de Minas (coluna Luiz Carlos Azedo); Exame; CNN Brasil; Terra; Fundação Perseu Abramo
  • Poder360 e Agência Brasil — tensão diplomática de julho de 2026

Nota: situação em evolução. Dados conferidos até a manhã de 6/11/2026, antes da sessão do Senado.

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