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1º round dos debates: Lula desafia Flávio a abrir o sigilo das duas famílias; senador insiste em Luchsinger, e presidente mira elo com Vorcaro

No primeiro frente a frente da campanha, a uma semana do segundo turno, os candidatos trocaram acusações de corrupção, disputaram a pauta da segurança e prometeram alívio no bolso — sob vaias e aplausos de uma plateia que obrigou a mediação a parar o relógio

Da Redação | Segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Depois de passarem o primeiro turno inteiro sem se encarar na TV, o presidente Luiz Inácio Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) finalmente dividiram o palco na noite de domingo (18), no debate promovido pela Band em parceria com o Estadão. O encontro, que abriu a temporada de confrontos do segundo turno, teve menos propostas do que ataques: cada lado chegou com um escândalo debaixo do braço e voltou a ele sempre que pôde.

A estratégia de Lula ficou clara desde o primeiro bloco: colar no adversário a imagem do pedido de R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Flávio respondeu puxando, repetidas vezes, o nome da lobista Roberta Luchsinger, investigada ao lado de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. O ponto alto veio no terceiro bloco, quando o petista lançou um desafio direto: que as duas famílias abram sigilos bancário e telefônico antes do dia 25.

Flávio chega ao debate na dianteira — terminou o primeiro turno com 47% dos votos válidos, contra cerca de 45% de Lula. Para quem não acompanhou, a seguir, o que de mais importante aconteceu em cada frente da disputa.

RAIO-X DO DEBATE

• Quando: domingo, 18 de outubro, na Band, com transmissão de Estadão, Cultura, Gazeta, Jovem Pan e YouTube

• Quem: Lula (PT), presidente e candidato à reeleição, e Flávio Bolsonaro (PL), senador pelo Rio de Janeiro

• Placar do 1º turno: Flávio 47,03% x Lula cerca de 45% dos votos válidos

• Temas dominantes: caso Vorcaro, investigação sobre Lulinha e Luchsinger, segurança pública, saúde, dívidas e relação com os EUA

• Próximo encontro: debate da TV Globo, na sexta-feira (23); votação no domingo (25)

O desafio: “abra o seu sigilo que eu abro o meu”

O lance mais comentado da noite partiu de Lula. No terceiro bloco, o presidente propôs que ele e Flávio entreguem os dados bancários e telefônicos das respectivas famílias às presidências do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral ainda antes da eleição. A provocação foi resumida numa frase: em vez de se declarar honesto, que o adversário demonstre.

Flávio não aceitou nem recusou formalmente. Disse não ter nada a esconder e devolveu a suspeita, afirmando que o dinheiro do lado petista circula por fora. O desafio ficou no ar — e deve voltar à propaganda eleitoral das duas campanhas nesta reta final.

Lula na ofensiva: o dinheiro de Vorcaro

Boa parte do primeiro confronto direto foi usada por Lula para cobrar onde foram parar os R$ 134 milhões que Flávio pediu a Vorcaro para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro. O caso veio à tona em maio, quando áudios do senador cobrando o banqueiro foram divulgados pelo Intercept Brasil, e desde então pesa sobre a candidatura do PL.

Flávio desviou da pergunta mais de uma vez antes de responder que os recursos foram destinados à produção e que já deu explicações suficientes. Em seguida, contra-atacou: segundo ele, em um áudio, o próprio Vorcaro menciona R$ 30 milhões que teriam chegado ao Instituto Lula por fora. Lula ainda quis saber como o senador comprou uma casa de R$ 10 milhões com o salário do cargo.

Flávio no contra-ataque: Luchsinger, Lulinha e o INSS

A principal arma do senador foi a investigação que envolve o filho mais velho do presidente. Flávio insistiu em perguntar sobre Roberta Luchsinger, lobista investigada junto com Lulinha, associou o chamado “careca do INSS” ao governo petista e quis saber por que Fábio Luís está morando na Espanha.

Lula respondeu que o caso está nas mãos da Polícia Federal e que o filho colocou à disposição a conta bancária e o celular. Aproveitou para alfinetar o adversário, dizendo que não é o tipo de pai que acoberta filho, numa referência à relação entre Flávio e Jair Bolsonaro. Sobre a fraude nas aposentadorias, sustentou que o esquema foi montado durante a gestão anterior.

Segurança: guerra ao crime x Ministério da Segurança

Foi o tema em que Flávio mais apostou. Já na primeira resposta, prometeu enquadrar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações narcoterroristas a partir de janeiro, abrir mais de 500 mil vagas no sistema prisional e empregar as Forças Armadas no controle das fronteiras. Mais adiante, defendeu castração química para estupradores e redução da maioridade penal para 14 anos nos crimes hediondos, ironizando a mudança de posição da bancada petista sobre o assunto.

Lula condicionou sua principal proposta ao Senado: se a PEC da Segurança for aprovada, criará um Ministério da Segurança Pública para permitir que a União atue diretamente nos estados. Defendeu a saída temporária para presos de bom comportamento, desde que excluídos os condenados por crimes violentos. E trouxe para o debate o caso de Ana Clara, menina de 5 anos morta em 2021 — Flávio atuou na defesa do policial acusado pela morte, episódio que a campanha petista já explora na TV.

Saúde: “padrão Einstein” e o fantasma da Covid

O senador prometeu um prontuário eletrônico único vinculado ao CPF e um SUS com qualidade de hospital de ponta, citando o Albert Einstein — instituição que já foi presidida por Claudio Lottenberg, nome cotado para a pasta num eventual governo do PL. Lula reagiu sugerindo que o adversário nunca pisou na rede pública e perguntou se o plano seria privatizar o SUS.

Questionado sobre a pandemia, Flávio admitiu que o governo do pai não teve o melhor desempenho na área, num raro gesto de autocrítica, mas lembrou que Lula se vacinou com doses compradas na gestão anterior. O presidente rebateu que metade das 716 mil mortes poderia ter sido evitada.

Bolso do eleitor: dívidas, 6×1 e o fantasma de Milei

Na economia, Flávio anunciou o congelamento de dívidas por seis meses para pessoas físicas e por um ano para empresas, a criação de um Ministério da Prosperidade e a manutenção do Bolsa Família. Acusou o governo de gastar R$ 350 bilhões com fins eleitorais e prometeu um “tesouraço” contra a corrupção.

Lula sustentou que a inflação dos alimentos foi menor no seu mandato do que no de Bolsonaro e perguntou se o adversário seguiria a cartilha do argentino Javier Milei. O senador explicou o voto a favor do fim da escala 6×1 dizendo ter mudado de ideia após ouvir trabalhadores; Lula retrucou que Flávio só conhece o trabalhador pelos livros.

Num bloco sobre produtividade, o presidente citou o programa Nova Indústria Brasil, a atração de data centers e a formação de jovens em engenharia e matemática. Flávio ironizou que Lula fala como se fosse oposição e prometeu tratar a internet como infraestrutura, conectar trabalhadores a vagas perto de casa e usar a Caixa para financiar pequenos negócios, com impostos cobrados só depois que a empresa começar a faturar.

Estados Unidos: soberania em pauta

Lula perguntou se Flávio pretende ceder aos EUA a exploração de terras raras e criticou a adesão ao Escudo das Américas, afirmando que a família Bolsonaro age subordinada a interesses norte-americanos — numa referência à atuação de Eduardo Bolsonaro no exterior. Flávio classificou a pergunta como fake news, disse ter ido aos EUA para defender empresas brasileiras do tarifaço e acusou o governo de pedir a Donald Trump que não classificasse PCC e CV como terroristas. Para ele, o Escudo é apenas cooperação regional contra o narcotráfico.

Mulheres: licença-maternidade e cadastro de pedófilos

Lula abriu o confronto direto lembrando que, em 2009, Flávio foi o único dos 49 deputados da Assembleia do Rio a votar contra a ampliação da licença-maternidade das servidoras. O senador negou ter qualquer coisa contra as mulheres, citou a esposa e as filhas e mudou de assunto. Mais tarde, cobrou do governo a implantação do Cadastro Nacional de Pedófilos, previsto em lei, e prometeu tirá-lo do papel.

Bastidores: a plateia que roubou a cena

Manifestações das torcidas interromperam o debate diversas vezes. A mediação precisou pedir silêncio repetidamente e chegou a congelar o cronômetro no segundo bloco e na abertura das considerações finais. Flávio pediu direitos de resposta — um foi concedido, no primeiro bloco — e, no encerramento, reclamou do tempo perdido com o barulho.

Nas falas finais, Lula agradeceu à militância nas ruas e saiu em defesa das estatais. Flávio lembrou que o voto é secreto e pediu tranquilidade a eleitores que se sintam pressionados.

O que vem por aí

O próximo e último encontro entre os dois está marcado para sexta-feira (23), na TV Globo, dois dias antes da votação. A tendência é que o desafio da quebra de sigilos e os casos Vorcaro e Luchsinger voltem ao centro do embate — agora diante da maior audiência da campanha.

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