Calendário Eleitoral

Quem decide 2026: o eleitor por trás dos números da BTG/Nexus

Reportagem baseada na 17ª rodada da pesquisa BTG/Nexus, divulgada em 13 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro (PL) tem 48% das intenções de voto e Lula (PT), 45%, a 12 dias do segundo turno. Em votos válidos, 52% a 48%. A diferença de 3 pontos está no limite da margem de erro de 2 pontos, para mais ou para menos, segundo a 17ª rodada da pesquisa BTG/Nexus, divulgada em 13 de outubro.

O número geral, porém, esconde dois Brasis que quase não conversam. De um lado estão mulheres, jovens de 16 a 24 anos, nordestinos, eleitores de até 1 salário mínimo e famílias do Bolsa Família. Do outro, homens, evangélicos, trabalhadores com carteira assinada e moradores do Sul e do Centro-Oeste. Entre eles há uma faixa estreita, de 7% a 9% do eleitorado, que ainda pode mudar o resultado.

O voto está cristalizado: 92% dizem que a decisão “não vai mais mudar”, e 83% escolheram o candidato antes mesmo do primeiro turno, em 4 de outubro. A eleição de 25 de outubro, portanto, se decide nas margens: no eleitor que acha o governo “regular”, em quem não foi votar no primeiro turno, nos eleitores de Zema, Caiado, Augusto Cury e Renan Santos e no pequeno grupo que rejeita os dois finalistas.

Quem vota em quem

O maior abismo da eleição é de gênero e de religião. Entre as mulheres, Lula vence por 15 pontos (54% a 39%); entre os homens, Flávio vence por 21 (57% a 36%). Entre evangélicos, Flávio abre 26 pontos (58% a 32%), a maior vantagem dele em um grupo de grande peso, já que os evangélicos são 34% da amostra.

O eleitor de Flávio Bolsonaro é majoritariamente homem, de 25 a 59 anos, com ensino médio ou superior, evangélico, com renda acima de 2 salários mínimos e emprego formal. Mora no Sul, no Centro-Oeste/Norte ou no interior do Sudeste.

O eleitor de Lula é majoritariamente mulher, jovem de 16 a 24 anos ou idoso de 60 anos ou mais, com ensino fundamental, católico ou sem religião, com renda de até 1 salário mínimo. Mora no Nordeste ou em capitais e recebe o Bolsa Família.

SegmentoPeso na amostraFlávioLulaVantagem
Total100%48%45%Flávio +3
Mulheres53%39%54%Lula +15
Homens47%57%36%Flávio +21
16 a 24 anos12%39%57%Lula +18
25 a 40 anos31%52%40%Flávio +12
41 a 59 anos34%50%41%Flávio +9
60 anos ou mais24%44%49%Lula +5
Ensino fundamental34%39%52%Lula +13
Ensino médio41%52%42%Flávio +10
Ensino superior25%53%41%Flávio +12
Católicos48%44%51%Lula +7
Evangélicos34%58%32%Flávio +26
Sem religião11%37%56%Lula +19
Até 1 salário mínimo19%32%58%Lula +26
De 1 a 2 salários mínimos18%47%44%Flávio +3
De 2 a 5 salários mínimos40%50%43%Flávio +7
Mais de 5 salários mínimos23%57%40%Flávio +17
Trabalhador formal44%54%39%Flávio +15
Trabalhador informal16%46%48%Lula +2
Nordeste28%32%61%Lula +29
Sudeste42%51%41%Flávio +10
Sul14%57%36%Flávio +21
Norte/Centro-Oeste16%56%41%Flávio +15
Capitais25%43%49%Lula +6
Interior62%50%44%Flávio +6

O Bolsa Família funciona como divisor de águas. Nos lares que recebem o benefício, Lula tem cerca de 68% contra 23% de Flávio. Entre os não beneficiários, Flávio lidera por cerca de 52% a 41%.

O Nordeste é a fortaleza de Lula, com vantagem de 29 pontos, mas responde por pouco mais de um quarto do eleitorado. O Sudeste, com 42% dos eleitores, dá a Flávio 10 pontos de frente, e Sul e Norte/Centro-Oeste somam outros 30% do país com vantagem bolsonarista acima de 15 pontos. Nas contas da reportagem, ponderando cada região pelo peso na amostra, o saldo de Lula no Nordeste (cerca de 8 pontos no total nacional) não compensa a soma das demais regiões (cerca de 9,5 pontos).

A margem de erro por segmento é maior que a geral: 3 pontos entre homens e mulheres, 4 entre evangélicos e nordestinos e 6 entre jovens e no Sul.

Quem vai decidir a eleição

Com 92% dos votos consolidados, a disputa está em grupos de fronteira, que se sobrepõem em parte. Neles, Lula vai melhor do que no total, mas precisa de uma virada para compensar a vantagem de Flávio no eleitorado já decidido.

Grupo decisivoTamanhoComo vota hojePor que pesa
Acham o governo Lula “regular”20% do eleitoradoLula 59%, Flávio 24%, branco/nulo 11%Maior reserva de votos de Lula. Ainda há 17% sem voto no petista
Não votaram no 1º turnosem percentual divulgadoFlávio 49%, Lula 41%Quem comparece em 25/10 pesa mais que a intenção
Eleitores de outros candidatos no 1º turnosem percentual divulgadoFlávio 45%, Lula 32%, branco/nulo 19%Zema (80% Flávio) e Caiado (55%) já migraram; Cury (43% x 41%) e Renan Santos (37% x 30%, 33% indefinidos) seguem em disputa
“Não polarizados”20% do eleitoradoLula 44%, Flávio 37%, branco/nulo 14%O grupo que menos se identifica com antilulismo ou antibolsonarismo; 18% ainda podem mudar o voto
Antilula e antibolsonaro ao mesmo tempo8% do eleitoradoLula 50%, Flávio 37%, branco/nulo 13%Rejeitam os dois e escolhem o “menos pior”; 13% podem mudar
Podem mudar o voto7% do eleitorado2ª opção: Lula 20%, Flávio 16%, branco/nulo 52%A maioria migraria para a abstenção, não para o adversário
Branco, nulo ou indecisos7% do eleitorado35% não se sentem representados; 28% rejeitam os doisDifícil de converter

O perfil de quem ainda pode mudar o voto difere do eleitorado geral. Nesse grupo há mais mulheres (56% contra 52% do total), mais evangélicos (44% contra 34%) e muito mais pessoas de baixa renda: 34% ganham até 1 salário mínimo, quase o dobro dos 19% no eleitorado geral. Também há mais moradores do Nordeste (33% contra 26%) e de regiões metropolitanas (20% contra 13%). É a evangélica de baixa renda que mora na periferia, cruzamento em que as identidades puxam para lados opostos: a religião puxa para Flávio, a renda puxa para Lula.

A abstenção pode pesar mais que a persuasão. Dizem que vão votar com certeza 89% dos eleitores, mas o número cai para 82% entre quem ganha até 1 salário mínimo e 84% entre evangélicos, contra 93% dos católicos. Entre os jovens, 14% só “provavelmente” vão comparecer. Mobilizar a base de baixa renda, onde Lula tem 26 pontos de vantagem, é o principal caminho aritmético do PT. Para o PL, o caminho é garantir o comparecimento evangélico.

Os jovens votam mais “contra” do que “a favor”. No eleitorado como um todo, 18% votam apenas para derrotar o adversário: 11% escolhem Flávio para derrotar Lula e 7% escolhem Lula para derrotar Flávio. Entre os eleitores de até 40 anos, essa taxa sobe para mais de 20%, segundo cruzamento por idade divulgado pela Nexus. Mas o voto útil dos mais jovens corre em direções opostas.

Faixa etáriaLula “para derrotar Flávio”Flávio “para derrotar Lula”Voto útil total*
16 a 24 anos13%9%22%
25 a 40 anos6%15%21%
41 a 59 anos6%10%16%
60 anos ou mais6%7%13%
Média nacional7%11%18%

*Soma calculada pela reportagem.

Entre 16 e 24 anos predomina o voto antibolsonarista, e 13% votam em Lula só para barrar Flávio. Entre 25 e 40 anos o sinal se inverte: 15% votam em Flávio só para derrotar Lula, a maior taxa de voto útil do candidato do PL em qualquer faixa. É um voto mais frágil, sustentado pela rejeição ao adversário, e por isso mais sensível a fatos novos na reta final. A margem de erro entre os jovens de 16 a 24 anos é de 6 pontos, o que pede cautela na comparação entre faixas.

A economia continua sendo o fiel da balança. Quem acha a economia do país “regular” vota Lula por 69% a 25%. Quem diz que a própria situação financeira está “regular” se inclina para Flávio, por 53% a 39%. O governo tem 34% de ótimo/bom, 45% de ruim/péssimo e aprovação de 45% contra 50% de desaprovação. Segurança pública é o principal problema citado (33%), à frente de saúde (29%), corrupção (18%) e educação (16%).

Análise SWOT: forças e fraquezas na reta final

A matriz abaixo foi elaborada pela reportagem a partir dos dados da pesquisa. Flávio entra na reta final com vantagem numérica e de expectativa. Lula tem mais espaço de crescimento nos grupos de fronteira, mas carrega a rejeição mais alta.

 Flávio Bolsonaro (PL)Lula (PT)
ForçasLidera com 48% a 45% (52% a 48% dos válidos). Base fiel: 98% dos seus eleitores do 1º turno o mantêm, 95% não mudam mais e 91% dos eleitores de Jair Bolsonaro em 2022 votam nele. 31% são “bolsonaristas convictos”, o maior bloco ideológico. Domínio entre homens (+21), evangélicos (+26), no Sul (+21) e entre trabalhadores formais (+15).81% dos eleitores votam nele por considerá-lo o melhor candidato, não por rejeição ao adversário, contra 71% no caso de Flávio. Fidelidade de 98% do voto do 1º turno e de 90% dos eleitores de 2022. Fortaleza no Nordeste (+29), entre quem ganha até 1 salário mínimo (+26), entre mulheres (+15) e entre jovens (+18).
FraquezasRejeição de 56% entre as mulheres, 61% entre os sem religião e 62% no Nordeste. Perde os jovens de 16 a 24 anos por 18 pontos. 23% dos seus eleitores votam “apenas para derrotar Lula”, um voto mais de rejeição que de adesão.Rejeição de 51%, a maior da disputa e acima da de Flávio (47%). Governo com 45% de ruim/péssimo e 50% de desaprovação. Rejeição de 63% entre evangélicos e de 61% entre homens. Perde no Sudeste, maior colégio eleitoral, por 10 pontos.
OportunidadesHerda o eleitor de Zema (80%) e de Caiado (55%). Lidera por 8 pontos entre quem não votou no 1º turno. 59% dos eleitores acreditam na vitória dele, inclusive 19% dos eleitores de Lula, o que pode desmobilizar o adversário. Teto de 49%.Vence por 59% a 24% entre quem acha o governo “regular” e por 50% a 37% entre os que rejeitam os dois. Entre quem pode mudar o voto, a 2ª opção favorece Lula (20% contra 16%). O cansaço com a polarização é maior entre seus eleitores (43%). Teto de 46%.
AmeaçasSe a abstenção evangélica for alta (só 84% têm certeza de que votam), a vantagem encolhe. Uma eventual mobilização feminina e nordestina ampliaria o voto em Lula, já que mulheres são 53% do eleitorado.Seu eleitor mais pobre é o que menos garante que vai votar (82% entre quem ganha até 1 salário mínimo). A percepção de derrota (só 36% acham que ele vence) pode desanimar a base. Corrupção, impostos e baixo crescimento são temas bem mais citados pelos eleitores de Flávio (24%, 14% e 15%) do que pelos de Lula (12%, 4% e 6%).

Projeção: três cenários para 25 de outubro

Em todos os cenários montados pela reportagem com os pisos e tetos calculados pela Nexus, Flávio termina à frente ou empatado. Lula só chega ao empate se conquistar todo o voto ainda em movimento. As projeções são cálculos da reportagem, não da Nexus, e pesquisa não é prognóstico.

CenárioPremissaFlávio (válidos)Lula (válidos)
CristalizaçãoO quadro de hoje se mantém: 48% a 45%51,6%48,4%
Virada máxima de LulaLula atinge o teto (46%) e Flávio cai ao piso (46%)50,0%50,0%
Consolidação de FlávioFlávio atinge o teto (49%) e Lula cai ao piso (43%)53,3%46,7%

O piso exclui quem diz que pode mudar o voto. O teto soma a esse voto a segunda opção de quem pode mudar.

O peso do comparecimento. A reportagem também simulou o efeito da abstenção desigual, ponderando o voto de cada faixa de renda pela parcela que diz ter certeza de que vai votar. O resultado mexe pouco, cerca de 0,3 ponto a favor de Flávio, porque a faixa de até 1 salário mínimo, a menos propensa a votar, é a mais lulista. Em uma disputa decidida por 2 ou 3 pontos, porém, até essa diferença conta.

O que observar nas próximas rodadas: se Lula reduz a rejeição entre evangélicos e homens, se a percepção da economia como “regular” migra para “boa” e se a fatia de jovens que só “provavelmente” vão votar (14%) se converte em comparecimento. A série histórica mostra os dois candidatos separados por poucos pontos desde março, quase sempre dentro da margem de erro.

Metodologia

A pesquisa BTG/Nexus (17ª rodada) ouviu 2.002 eleitores de 16 anos ou mais, por telefone (CATI), de 10 a 12 de outubro de 2026, nas 27 unidades da Federação. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. As cotas usadas foram sexo, idade, escolaridade, tipo de telefonia e DDD, com base na PNAD Contínua e no TSE. Está registrada no TSE sob o número BR-07997/2026 e foi divulgada em 13 de outubro de 2026. O estatístico responsável é Neale El-Dash (CONRE 8656-A).

As análises SWOT, as contribuições regionais e os cenários de projeção são cálculos e interpretações da reportagem a partir dos dados publicados.

Fonte: BTG Pactual/Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, Eleições 2026 – Presidente, 17ª Rodada (relatório em PDF). O recorte de voto útil por faixa etária foi divulgado pela Nexus no release “Mais jovens são mais adeptos ao voto útil neste segundo turno” (nexus.fsb.com.br/?p=16501).

Receba mensagem no WhatsApp