Flávio Bolsonaro ao NYT: o que o jornal americano de fato publicou
6 de novembro de 2026 · Por Gilberto Martins
Em 75 minutos de conversa em Miami, senador nega ajuda externa para deixar o Brasil e repete alegação de fraude sem provas; jornal confronta a versão com informações de autoridades americanas

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado por Lula no segundo turno de 25 de outubro, deu sua primeira entrevista desde que deixou o Brasil ao jornal americano The New York Times. A conversa, de 75 minutos, foi feita na quarta-feira (4) em Miami pela correspondente Ana Ionova, com fotos de Scott McIntyre. O irmão Eduardo Bolsonaro acompanhou o encontro. A reportagem saiu na quinta-feira (5).
O título da versão em inglês pergunta como Flávio fugiu do Brasil e traz a resposta dele: vai levar isso para o túmulo. O texto não se limita a reproduzir a fala do senador. Cada afirmação central é confrontada com dados oficiais e com informações de autoridades dos Estados Unidos ouvidas pelo jornal.
Por que o New York Times
A escolha do jornal veio depois de um impasse com a TV Globo. Flávio aceitou falar à emissora com a condição de que a entrevista fosse exibida na íntegra, sem cortes e sem temas vetados. A Globo não aceitou e exibiu em 1º de novembro sua própria reportagem sobre a saída dele do país.
No mesmo dia, o senador anunciou que procuraria veículos brasileiros e estrangeiros nas mesmas condições. Na véspera da publicação, o aliado Paulo Figueiredo divulgou no X que sairia no NYT a entrevista que a Globo teria tido medo de fazer.
A saída do Brasil: duas versões
O ponto central da reportagem é o contraste entre o relato de Flávio e a apuração do jornal sobre a viagem até Miami.
A versão do senador. Flávio afirmou que organizou tudo sozinho, junto com a mulher, sem ajuda de nenhum governo. Admitiu no máximo que houve torcida a seu favor. Quando perguntado sobre o trajeto, disse que levaria o segredo para o túmulo.
O que o jornal apurou. Segundo autoridades americanas ouvidas pelo NYT, o jato particular que levou o senador a Miami foi providenciado por um funcionário da Casa Branca. A entrada da família nos EUA teria sido autorizada diretamente pelo presidente Donald Trump. A reportagem registra ainda que um dos principais assessores do presidente argentino, Javier Milei, recebeu Flávio no aeroporto na Argentina.
A decisão de partir. Flávio contou que decidiu sair na manhã seguinte à derrota, quando deixava o condomínio onde o pai cumpre prisão domiciliar. Disse que tinha recebido ordem para entregar os passaportes em 24 horas. Relatou uma conversa reservada com Jair Bolsonaro, emocionado, mas negou que os dois tenham falado de um plano de fuga.
O trajeto. Horas depois, o senador publicou um vídeo dizendo que entregaria os documentos e que nunca pensara em deixar o país. Em seguida desapareceu e reapareceu em Miami cerca de 42 horas mais tarde. O percurso passou por Argentina e Equador e somou mais de 8 mil quilômetros.
Investigações e temor de prisão
Flávio é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro e corrupção. Na entrevista, reafirmou ser inocente, disse ser alvo de perseguição política e afirmou que seria preso se ficasse no Brasil.
O jornal registra que ele ainda não foi denunciado formalmente. O senador perde a imunidade parlamentar quando o mandato terminar, no início de 2027.
Fraude eleitoral: alegação sem provas
Flávio afirmou que a vitória de Lula foi “matematicamente impossível”, mas não apresentou provas. Repetiu questionamentos já desmentidos sobre as urnas eletrônicas e a apuração. Questionado sobre as evidências, admitiu que se baseia em suspeitas e que ninguém pode ter certeza de que ele está certo ou errado. Reconheceu também que a contestação não deve levar a nada e resumiu a derrota dizendo ter perdido para o sistema.
O NYT contextualizou cada ponto:
- Horário de votação. A principal queixa do senador é a prorrogação do horário. O jornal lembra que o pedido partiu das duas campanhas, por causa de chuvas fortes e atrasos no transporte.
- Tamanho do efeito. A extensão envolveu cerca de 34 mil votos. Lula venceu por uma diferença de 4,4 milhões.
- O próprio partido. O PL aceitou o resultado, e lideranças da legenda disseram não ver indícios de fraude.
- Reconhecimento externo. Observadores internacionais certificaram a eleição, e dezenas de países reconheceram a vitória de Lula. Os Estados Unidos não estão entre eles.
- Contexto histórico. O texto recorda a condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe após a eleição de 2022 e os ataques de 8 de janeiro de 2023.
Trump, status migratório e planos
Trump disse apenas que a eleição brasileira pareceu “estranha”, sem apontar vencedor. Flávio avaliou que o presidente americano agiu certo ao não tomar partido e agradeceu a ele por poder permanecer nos EUA.
O senador, a mulher e as duas filhas podem ficar no país por pelo menos um ano, com um status migratório normalmente concedido por razões humanitárias. Ele disse ainda não saber onde a família vai morar.
Flávio pretende contestar a vitória de Lula na Justiça e apoiar aliados que defendem a redução da maioridade penal e a anistia ao pai e aos condenados do 8 de janeiro. Evitou responder se pedirá ao governo Trump novas medidas contra o Brasil. Disse que, se houver novas eleições, será candidato outra vez. Sua equipe tenta um encontro com Trump durante a CPAC, em Mar-a-Lago, embora o presidente tenha dito que não pretende recebê-lo.
O que a matéria não disse
| Versão que circula | O que consta na reportagem |
| O NYT chamou Flávio de criminoso | Não. O jornal usa o verbo “fugir” para a saída de Flávio e de Eduardo, mas registra que Flávio não foi formalmente acusado de crime |
| A entrevista seria favorável ao senador | Aliados a anunciaram assim. O texto publicado confronta as principais falas com dados e fontes oficiais |
| O jornal escondeu o que ele disse | As declarações centrais aparecem no texto. Aliados dizem que pediram a íntegra e que o NYT recusou; Eduardo prometeu divulgar a gravação completa nesta sexta (6) |
| A matéria foi destaque do jornal | A versão impressa de sexta-feira (6) não destacou a entrevista |
Repercussão entre aliados
Apoiadores reagiram nas redes chamando o jornal de “esquerdista” e atacando a repórter Ana Ionova, que depois apagou do Instagram a publicação em que divulgava o texto. Parte dos bolsonaristas também questionou a decisão de Flávio de falar ao NYT.
Paulo Figueiredo mudou o discurso após a publicação. Passou a dizer que o grupo já esperava uma cobertura enviesada e que o objetivo era recolocar Flávio no noticiário internacional. Anunciou ainda entrevistas ao Washington Post e à Folha de S.Paulo.
Nota de apuração e fontes
O texto original do NYT está atrás de paywall e não pôde ser consultado diretamente. Esta matéria se baseia na cobertura da imprensa brasileira sobre a reportagem. Até o fechamento, não havia confirmação de que a gravação integral prometida por Eduardo Bolsonaro tivesse sido divulgada.
