Reportagem

Onda azul: democratas tomam o Congresso, Obama volta ao palanque e Trump perde o controle da agenda

Com maioria projetada no Senado e na Câmara, a oposição ganha poder de investigar e barrar leis do governo. Mas as tarifas — inclusive as que atingem o Brasil — seguem nas mãos da Casa Branca.

O ex-presidente Barack Obama em campanha com a governadora de Michigan Gretchen Whitmer (E)  Foto: JEFF KOWALSKY / AFP/O ESTADÃO

Quarta-feira, 4 de novembro de 2026  •  Atualizado com a apuração da manhã

O Partido Democrata recuperou o controle das duas casas do Congresso dos Estados Unidos nas eleições de meio de mandato desta terça-feira (3), impondo ao presidente Donald Trump a derrota mais dura de seu segundo mandato. Segundo projeções da NBC News, os democratas viraram sete cadeiras no Senado — Iowa, Kansas, Ohio, Maine, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Texas — e terão maioria nas duas casas a partir de janeiro.

Algumas vitórias têm peso histórico. No Texas, o democrata James Talarico derrotou o republicano Ken Paxton com cerca de 55% dos votos. No Kansas, o pastor metodista Adam Hamilton bateu o senador Roger Marshall e se tornou o primeiro democrata eleito pelo estado ao Senado desde 1932. Na Carolina do Sul, a pediatra Annie Andrews venceu Darline Graham, que havia assumido a vaga deixada por seu irmão, Lindsey Graham, morto no início do ano. Em Michigan, Abdul El-Sayed derrotou Mike Rogers e será o primeiro muçulmano eleito senador do país.

O placar no Congresso

A apuração ainda não terminou e os números variam conforme o veículo. O quadro abaixo reúne o que as principais redes e agências projetavam na manhã desta quarta-feira:

CasaCadeiras para maioriaSituação dos democratas (projeções)
Senado (100)51Ao menos 53 cadeiras na contagem do jornal espanhol Estrella Digital, com quatro disputas ainda abertas; partiram de 47
Câmara (435)218NBC estima cerca de 255 a 258 cadeiras; CNBC projeta no mínimo 245. Ainda há dezenas de distritos sem definição

Os números finais podem mudar nos próximos dias. Pela regra americana, o novo Congresso toma posse em 3 de janeiro. O líder democrata Hakeem Jeffries deve se tornar o primeiro negro a presidir a Câmara, desde que confirmado em votação no plenário.

Obama, o “fechador” da campanha

Quase dez anos depois de deixar a Casa Branca, Barack Obama foi o rosto mais requisitado da reta final democrata. A pergunta central desta reportagem — ele deu ânimo novo à conquista de votos? — tem uma resposta em duas partes: no entusiasmo e na mobilização, sim, de forma visível; no peso decisivo sobre o resultado, a avaliação é mais cautelosa.

Onde e como ele atuou

  • Detroit (24/10): comício num ginásio de escola lotado ao lado de Abdul El-Sayed e da candidata a governadora Jocelyn Benson. Obama atacou Trump e os republicanos por promessas descumpridas e associou a própria trajetória à de El-Sayed.
  • Ohio: apoio à candidata a governadora Amy Acton e ao ex-senador Sherrod Brown, que tentava voltar ao Senado.
  • Atlanta: comício em defesa do senador Jon Ossoff, reeleito na Geórgia e citado como possível nome para 2028.
  • Além dos palanques, gravou mais de duas dezenas de vídeos de apoio a candidatos, segundo a MS NOW.

A estratégia, descrita por seu assessor Eric Schultz, era usar Obama onde sua voz pudesse “mover o ponteiro” a favor de uma nova geração de candidatos. A emissora MS NOW o chamou de “closer in chief” do partido; o Washington Post registrou que os democratas o adotaram como seu mensageiro mais eficaz no encerramento da campanha. O tom também mudou: no primeiro ano do segundo mandato de Trump, Obama manteve discrição; nesta campanha, voltou ao ataque direto.

O historiador Julian Zelizer, de Princeton, disse à AFP que Obama segue muito querido e confiável entre democratas e além deles, e que pode funcionar como uma liderança provisória enquanto o partido procura um nome para 2028. O próprio Trump reagiu: em comício na Geórgia, afirmou que o evento de Obama em Michigan estava vazio, segundo a AP.

O resultado dos candidatos que ele apoiou

Boa parte dos nomes que Obama apoiou na reta final venceu: Talarico no Texas, Josh Turek em Iowa, Amy Acton em Ohio, além de El-Sayed e Ossoff. Na madrugada, Obama publicou nas redes que os eleitores mandaram um recado claro a favor de uma política que una em vez de dividir, e pediu que as novas maiorias trabalhem para “evitar mais danos” nos dois anos restantes do governo.

Os limites do “efeito Obama”

Há ressalvas. O site Covers registrou que os mercados de apostas não melhoraram as chances dos candidatos apoiados por ele após os comícios de outubro. E, entre eleitores ouvidos pela AFP em Atlanta, houve quem lembrasse que, em distritos indecisos, o voto é guiado por preços e pela vida cotidiana — e não pela presença de um ex-presidente.

Os dados de boca de urna apontam outros motores. No Kansas, a pesquisa da NBC mostrou que 10% de quem votou em Trump em 2024 migrou para Hamilton. A Decision Desk HQ atribuiu a virada no estado à insatisfação com as tarifas e à alta dos combustíveis provocada pela guerra com o Irã. Os democratas, por sua vez, centraram a mensagem final em custo de vida e economia.

Em resumo: Obama reacendeu o entusiasmo da base, deu visibilidade nacional a candidatos em estados difíceis e funcionou como contraponto ao carisma de Trump. Mas a onda azul teve como combustível principal o descontentamento com a economia, as tarifas e a guerra — fatores que nenhum comício, sozinho, explica.

Trump depois da derrota

A reação do presidente oscilou entre a aceitação e a negação. Ao New York Times, ele disse estar “absolutely willing to accept those results” (“absolutamente disposto a aceitar esses resultados”). Pouco antes, no Truth Social, afirmou que os republicanos teriam vencido com folga se o nome dele estivesse na cédula, e que passaria a comentar os motivos de vitórias e derrotas dos candidatos.

Em telefonema à Fox News, parabenizou os democratas, disse que eles lutaram bem e jogou a culpa nos candidatos republicanos, não em suas políticas — afirmando não ver o resultado como um golpe pessoal. Ao Politico, contou ter falado com líderes democratas por volta das 23h e disse preferir fechar acordos a passar os dois últimos anos vetando leis. Cerca de uma hora depois, porém, publicou a foto de um boné com a palavra “veto”. A TV irlandesa RTÉ relatou um clima de bunker na Casa Branca e sinais de que Trump não deve sair de cena em silêncio.

O que muda na prática

  • Agenda legislativa travada: sem maioria em nenhuma das casas, Trump não aprova leis sem negociar com a oposição.
  • Veto como arma principal: derrubar um veto exige dois terços das duas casas — margem que os democratas, mesmo ampliados, provavelmente não têm.
  • Investigações: Jeffries prometeu usar a maioria para investigar suspeitas de corrupção no governo. Comissões passam a ter poder de convocação.
  • Orçamento e guerra: o ex-embaixador Ted Osius prevê que o Congresso use o controle das verbas para limitar a guerra no Oriente Médio. Chuck Schumer já defendia restringir os poderes de guerra do presidente.
  • Mais decretos e política externa: analistas ouvidos pela Al Jazeera temem que um Trump contido em casa se volte com mais força para a política externa, onde depende menos do Congresso.

O Brasil e a questão tarifária

Para o Brasil, a vitória democrata é um alívio político, mas não significa o fim imediato das tarifas. Entender por quê exige olhar a cronologia:

QuandoO que aconteceu
Jul–ago 2025Trump anuncia tarifa de 50% sobre produtos brasileiros com base na lei de emergência IEEPA, citando o processo contra Jair Bolsonaro; setores como aviões, energia e suco de laranja ficam isentos
20 fev 2026Suprema Corte dos EUA decide que a IEEPA não autoriza o presidente a criar tarifas e derruba o tarifaço
15–22 jul 2026USTR conclui investigação pela Seção 301 e impõe 25% adicionais a produtos brasileiros, citando Pix, etanol, corrupção e desmatamento
24–25 jul 2026Entra em vigor sobretaxa de 12,5% por “trabalho forçado” sobre cerca de 60 economias; somada, a cobrança pode chegar a 37,5%
25 out 2026Lula é reeleito ao vencer Flávio Bolsonaro, candidato apoiado por Trump

Por que o Congresso não derruba as tarifas sozinho

A Seção 301 é uma lei já aprovada que delega ao Executivo o poder de retaliar práticas comerciais consideradas desleais — não depende de novo voto no Congresso. Especialistas ouvidos pela Reuters esperam audiências de fiscalização e votações simbólicas para revogar tarifas, mas não uma reversão efetiva; para virar lei, uma revogação passaria pelo veto de Trump. Economistas do Goldman Sachs chegam a prever que a tarifa média efetiva suba quase 2 pontos percentuais, e que esforços democratas teriam efeito limitado, focado em poucos países ou produtos.

Onde o Brasil pode ganhar

  • Pressão e custo político: o governo Lula aposta que a maioria democrata eleve o preço de novas medidas unilaterais contra o país e abra espaço para negociações menos sujeitas à vontade da Casa Branca.
  • Investigações: parlamentares democratas já enviaram dezenas de cartas ao Departamento de Estado sobre a política para o Brasil, e 25 deputados cobraram explicações do secretário Marco Rubio sobre o visto concedido a Flávio Bolsonaro. Com o controle das comissões, isso pode virar investigação formal — inclusive sobre como as tarifas foram impostas.
  • Pautas específicas: fontes do Itamaraty citam ganhos possíveis na relação com as big techs e nas negociações ambientais.
  • Apoio interno: o Plano Brasil Soberano, lançado em 2025, segue como principal instrumento de crédito e garantias para exportadores afetados.

Para o exportador brasileiro: no curto prazo, nada muda na alfândega. A mudança é de ambiente: mais fiscalização, mais custo político para novas sanções e uma janela maior para negociação.

O que o mundo pode esperar de Trump com o freio de mão democrata

O recado dos analistas é de cautela. Um especialista ouvido pela Reuters advertiu que países que esperam mudança na política externa americana por causa das midterms estão enganados. Em entrevista à Al Jazeera, o analista Okun resumiu que, para a Ásia, o novo Congresso pouco muda em comércio — uma virada mais profunda teria de esperar a eleição presidencial de 2028.

Ainda assim, o tabuleiro se altera em quatro frentes:

  • Comércio: tarifas continuam, mas sob audiências públicas e votações que expõem republicanos de estados agrícolas e industriais. A disputa passa a mirar 2028.
  • Guerra e segurança: o Congresso pode usar o orçamento para limitar operações militares, especialmente no conflito com o Irã.
  • Aliados e previsibilidade: parceiros asiáticos e europeus buscam mais estabilidade e garantias de segurança; empresas observam se republicanos passarão a enfrentar Trump em temas como tarifas e venda de armas.
  • Risco de escalada externa: sem margem legislativa, Trump pode intensificar ações onde age sozinho — decretos, tarifas e política externa.

No fim, a avaliação mais comum é a de um presidente menos capaz de aprovar leis, mais vigiado e com a sucessão de 2028 já em curso — mas ainda com poder considerável para agir sozinho no comércio e na diplomacia.

Outro lado

Republicanos e aliados do presidente contestam a leitura de rejeição. Trump afirma ter feito os dois melhores anos da história da Presidência e atribui as derrotas aos candidatos. O presidente da Câmara, Mike Johnson, lembrou que o partido no poder costuma perder cadeiras em eleições de meio de mandato — as exceções modernas foram 1998 e 2002. Em colunas na Fox News, comentaristas conservadores argumentam que a agenda de Trump merece continuar e que a derrota pode ter um lado positivo para o partido.

FONTES

• NBC News – live blog e resultados da Câmara (4/11/2026)

• CNBC – Election Day recap (3–4/11/2026)

• Yahoo News, Washington Post e Newsweek – resultados do Senado (TX, KS, SC, MI, ME)

• Estrella Digital – contagem do Senado (4/11/2026)

• Axios, Forbes, CNN e RTÉ – reações de Donald Trump (4/11/2026)

• Washington Post, MS NOW, AFP/Manila Times, Covers, TheGrio – campanha e declarações de Obama

• Reuters/The Star, Al Jazeera, Fortune, Multibagg – impacto sobre tarifas e política externa

• Greenberg Traurig, Thomson Reuters Brasil, SpaceMoney – tarifas da Seção 301 sobre o Brasil

• Brasil de Fato, BPMoney, ICL Notícias, Em Dia ES – visão do governo Lula e do Itamaraty

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