Obama de volta ao palanque: o que está em jogo nas midterms de 2026

Nov 1, 2026 · @gilbertiomartins
Obama voltou ao palanque porque os democratas têm, nesta terça-feira, 3 de novembro, a melhor chance em seis anos de retomar o Congresso — e porque o partido ainda não tem outro líder capaz de mobilizar o eleitorado como ele.
A dois dias da votação, Barack Obama, 65 anos, fez comícios em Ohio, Michigan e Geórgia. Ele assumiu de novo o papel de “closer” — o nome que puxa a reta final da campanha. Do outro lado, Donald Trump também percorre estados-chave para tentar salvar a maioria republicana.
O que acontece agora são as eleições de meio de mandato (midterms). Nelas, os americanos escolhem deputados, senadores e governadores. A Presidência só estará em disputa em 7 de novembro de 2028.
Por que Obama voltou
Ele continua sendo o maior mobilizador do partido. Uma pesquisa NBC News de outubro mostrou que 43% dos eleitores registrados — e 77% dos democratas — ficariam mais propensos a apoiar um candidato endossado por ele (Daily Beast). Em janeiro de 2025, o Gallup apontava 59% de imagem favorável entre todos os americanos, a maior entre os ex-presidentes vivos (Fox News).
O partido ainda não tem um novo líder. Depois da derrota de 2024, Biden e Kamala Harris perderam protagonismo, e nenhum nome se impôs para 2028. Estrategistas dos dois lados dizem que Obama ocupa esse vazio (Political Bytes). Republicanos usam isso como crítica: se o partido precisa de um ex-presidente de 2009, é porque falta renovação.
O caixa democrata é mais fraco. Em agosto, o Comitê Nacional Democrata (DNC) acumulava US$ 18,5 milhões em dívidas e vinha sendo superado em arrecadação pelos republicanos. Obama foi chamado a ajudar com eventos de doação (Washington Examiner). Pessoas próximas dizem que ele prefere passar de “jogador a técnico” da nova geração.
O roteiro da reta final
| Data | Local | Com quem |
| 28 out | Atlanta/Morrow, Geórgia | Sen. Jon Ossoff e Keisha Lance Bottoms (governo) |
| 24 out | Detroit, Michigan | Abdul El-Sayed (Senado) e Jocelyn Benson (governo) |
| 24 out | Cleveland, Ohio | Sherrod Brown (Senado) e Amy Acton (governo) |
Fonte: AOL/USA Today, NBC News.
O discurso
Obama apresenta a eleição como um referendo moral sobre o governo Trump, a quem chamou de agente de “caos e crueldade” (NBC News). Os alvos concretos:
- Guerra com o Irã: na Geórgia, disse que o conflito foi iniciado sem necessidade e deixou os americanos menos seguros (Al Jazeera).
- Tarifas e custo de vida: criticou as tarifas contra o Canadá e o preço da gasolina.
- Prioridades da Casa Branca: ironizou o salão de baile e a reforma do Jardim das Rosas — disse que Trump deveria estar no canal HGTV.
- Ataques pessoais na campanha: em Ohio, condenou o anúncio de Vivek Ramaswamy com a mãe afastada da rival Amy Acton; em Michigan, os ataques à fé muçulmana de El-Sayed (ABC7).
O que está em jogo
A disputa é pelo Congresso e por governos estaduais — não pela Presidência. Trump segue no cargo até janeiro de 2029 e não pode concorrer a um terceiro mandato. Mas o resultado define o quanto ele conseguirá governar nos seus dois últimos anos.
| Cargo | Em disputa | Situação atual | Meta democrata |
| Câmara dos Representantes | Todas as 435 cadeiras | Maioria republicana estreita | 218 cadeiras |
| Senado | 35 das 100 cadeiras | Republicanos 53 x 47 | 51 cadeiras (ganho líquido de 4) |
| Governos estaduais | 36 estados | — | Manter e ampliar |
Fontes: Polymarket, Dave Manuel.
No Senado, os democratas precisam de 51 cadeiras, não 50: em caso de empate, quem desempata é o vice-presidente JD Vance. O mapa é difícil, mas os republicanos defendem 22 das 35 vagas em disputa, contra 13 dos democratas.
Por que importa:
- Freio ao governo Trump: com a Câmara, os democratas controlam o orçamento, podem bloquear leis e abrir investigações sobre o Executivo.
- Nomeações: o Senado aprova juízes, inclusive da Suprema Corte, e integrantes do gabinete.
- Ensaio para 2028: uma vitória ampla reforça a tese democrata de que há rejeição ao trumpismo; uma derrota aprofundaria a crise de liderança.
- Termômetro do país: a aprovação de Trump está entre 31% (Reuters/Ipsos, recorde negativo) e 37% nas médias, com 71% dizendo que o país está no rumo errado (National Security Journal). Gasolina cara e a guerra com o Irã pesam.
As chances
Os democratas são favoritos para retomar a Câmara (entre 83% e 94% de chance) e levemente favoritos no Senado (entre 63% e 76%). Todos os modelos e mercados de apostas apontam na mesma direção; a diferença está no tamanho da vantagem.
| Fonte | Câmara (chance D) | Senado (chance D) | Projeção |
| Decision Desk HQ (31 out) | 83% | 63% | 241 deputados, 52 senadores |
| Poliwave (31 out) | 88% | 76% | 230 deputados, 52 senadores |
| Polymarket (mercado de apostas, 30 out) | 94% | 71% | — |
Na pesquisa nacional que pergunta em qual partido o eleitor vai votar para o Congresso, os democratas lideram por 47% a 36% (Reuters/Ipsos, 26 out) — vantagem de 11 pontos (ThePrint/Reuters). É a maior diferença desde 2008, ano em que o próprio Obama foi eleito. Em Wall Street, 96% dos investidores ouvidos pela Wolfe Research esperam Câmara democrata (CNBC).
As disputas que decidem o Senado
Para chegar a 51 cadeiras, os democratas precisam vencer em estados que votaram em Trump em 2024. As mais apertadas, segundo o DDHQ:
| Estado | Candidato democrata | Rating DDHQ |
| Ohio | Sherrod Brown | Empate técnico |
| Texas | James Talarico (vs. Ken Paxton) | Empate técnico |
| Iowa | — | Empate técnico |
| Kansas | Adam Hamilton | Empate técnico |
| Alasca | Mary Peltola | Empate técnico |
| Maine | Troy Jackson | Inclinação democrata |
| Michigan | Abdul El-Sayed | Inclinação democrata |
| Carolina do Sul | — | Inclinação republicana |
Fontes: DDHQ, Polymarket, NewsNation.
Cautela: previsões são probabilidades, não resultados. Em 2016 os modelos também favoreciam os democratas. E a vantagem no Senado depende de vitórias em estados tradicionalmente republicanos, como Texas, Ohio e Alasca.
De olho em 2028
A próxima eleição presidencial será em 7 de novembro de 2028, e nenhum grande nome declarou candidatura ainda. As primárias, incluindo a verdadeira “Super Terça”, acontecem no início de 2028. As midterms funcionam como vitrine: quem faz campanha agora acumula apoios, doadores e visibilidade.
Democratas: campo aberto
Não há favorito claro, e a liderança muda conforme a pesquisa.
| Nome | Quem é | Sinal recente |
| Kamala Harris | Ex-vice-presidente, candidata em 2024 | Lidera a maioria das pesquisas; média RCP de 26% entre jul e out de 2025 (RealClearPolling) |
| Gavin Newsom | Governador da Califórnia | Ganhou projeção no embate com Trump e na guerra dos mapas eleitorais; 9% contra 12% de Harris no NYT/Siena de outubro (Townhall) |
| Alexandria Ocasio-Cortez | Deputada por Nova York | Preferida da ala progressista e dos mais jovens; liderou pesquisa AtlasIntel com 26% (Newsweek) |
| Pete Buttigieg | Ex-secretário de Transportes | Oscila entre 7% e 26% conforme a pesquisa |
| Josh Shapiro | Governador da Pensilvânia | Forte em estado decisivo; posição pró-Israel divide a base (The Hill) |
| Jon Ossoff | Senador pela Geórgia | Em campanha pela reeleição agora, com Obama ao lado |
Também aparecem Mark Kelly, Andy Beshear, JB Pritzker, Gretchen Whitmer e Wes Moore.
Republicanos: Vance x Rubio
Trump não pode concorrer. A disputa pela sucessão se concentra no vice JD Vance e no secretário de Estado Marco Rubio. Vance lidera na maioria das pesquisas — 33% a 23% no NYT/Siena de outubro (Denver Gazette). Rubio, porém, encostou ao longo de 2026 e chegou a liderar na AtlasIntel (Daily Beast). Ele diz que não enfrentaria Vance se o vice decidir concorrer. O apoio de Trump tende a ser decisivo.
E Obama? Ele não pode voltar à Presidência — a Constituição limita a dois mandatos. Seu papel em 2028 deve ser o de cabo eleitoral e conselheiro, não candidato.
Adendo: e Michelle Obama?
Ela pode concorrer, mas a chance real é muito baixa — porque ela diz, há anos, que não quer. Diferentemente do marido, Michelle Obama não tem nenhum impedimento legal: é cidadã nata, tem 62 anos e nunca exerceu a Presidência. O limite de dois mandatos vale para Barack, não para ela.
- O que ela diz: desde 2018 repete que a política nunca foi seu caminho e que não quer ser presidente (Newsweek). Em 2024, seu escritório chegou a divulgar nota afirmando que ela não seria candidata (The Independent/AOL).
- O sinal mais recente: em outubro de 2026, o irmão dela, Craig Robinson, disse que nenhum nível de crise no país a faria entrar na disputa de 2028 (Patriot News Alerts/TMZ).
- Popularidade: mesmo sem ser candidata, ficou em segundo lugar entre jovens democratas numa pesquisa Axios-Generation Lab de agosto, atrás de Kamala Harris (28,7%) (Newsweek). Em 2024, uma Reuters/Ipsos mostrou que ela era a única democrata que venceria Trump num confronto hipotético (Fox News).
- Mercados de apostas: em meados de 2026, a chance de ela ser a candidata democrata era negociada em cerca de 2% (PredictionEdge).
Resumo: Michelle é o nome que mais anima a base e o menos disposto a entrar no jogo. Só uma mudança de posição pessoal, hoje sem qualquer indício, alteraria esse quadro.
O que observar na terça
A noite deve começar a ser decidida pelos estados onde Obama e Trump mais apareceram.
- Geórgia e Ohio — fecham as urnas cedo e servem de termômetro. Ossoff reeleito e Brown competitivo indicariam noite boa para os democratas.
- Michigan — teste para um candidato progressista e muçulmano, El-Sayed, num estado-pêndulo.
- Texas — uma vitória democrata no Senado seria a primeira em décadas e marcaria a noite.
- Câmara — a contagem de distritos competitivos na Califórnia e em outros estados do Oeste pode levar dias.
- Margem final — uma onda (mais de 230 deputados democratas) seria lida como rejeição a Trump; uma vitória apertada manteria o partido dividido sobre o rumo para 2028.
Para Obama, o resultado também é pessoal. Uma vitória ampla reforça seu peso como fiador do partido. Uma derrota alimentaria a crítica de que os democratas dependem demais de uma figura do passado — e aceleraria a busca por um novo rosto até 2028.
Flávio Bolsonaro nos EUA: o movimento para deportá-lo vinga?
O movimento para deportar Flávio Bolsonaro existe e cresce entre democratas, mas dificilmente vinga enquanto Trump estiver na Casa Branca. Quem decide deportação nos EUA é o governo federal — o mesmo que autorizou a entrada dele. Uma vitória democrata na terça daria ao partido poder de investigar e constranger, não de expulsar.
Como Flávio chegou aos EUA
- 25 out: perde o segundo turno para Lula por 48,2% a 51,8% e diz que vai pedir a anulação da eleição (Gazeta do Povo). Ministros do TSE e do STF avaliam que o pedido não deve prosperar (Imirante).
- 26 out: Alexandre de Moraes, do STF, proíbe sua saída do país e manda entregar os passaportes em 24 horas, numa investigação de lavagem de dinheiro. Flávio não cumpre a ordem (Courthouse News).
- 27–28 out: cruza a pé para a Argentina com a família, passa pelo Equador e chega à Flórida num jato particular (ABC Austrália).
- A posição de Washington: o Departamento de Estado disse que daria vistos a ele e à família (The Globe and Mail). Trump confirmou que o governo lhe deu um “passe” para entrar (CNN). Segundo a Reuters, ele entrou com autorização humanitária temporária (humanitarian parole); Marco Rubio negou que os EUA tenham organizado a fuga (Gizmodo Brasil).
- A versão dele: em vídeo, Flávio diz ser vítima de perseguição e afirma que pretende disputar a Presidência de novo antes de 2030.
Quem pede a deportação
- Nas redes: a campanha #DeportTheBolsonaros acusa Trump de hipocrisia — acolher um aliado estrangeiro enquanto o ICE faz deportações em massa (Revista Fórum).
- No Congresso: democratas da Comissão de Relações Exteriores da Câmara criticaram os vistos, comparando o caso a refugiados do Sudão e do Haiti que não recebem o mesmo tratamento. Deputados como Joaquin Castro enviaram carta perguntando se o governo ajudou Flávio a burlar a ordem judicial brasileira (Terra, DCM).
- Na campanha: Isaiah Martin, candidato democrata à Câmara pelo Texas, disse que deportaria os Bolsonaro “no primeiro dia” (Jornal de Brasília).
Por que dificilmente vinga — por ora
| Caminho | Quem decide | Chance no curto prazo |
| Deportação | Governo Trump (Departamento de Segurança Interna e tribunais de imigração) | Muito baixa: o próprio governo o acolheu |
| Revogar o parole ou o visto | Governo Trump | Muito baixa pelo mesmo motivo; e revogar o visto não obriga saída automática |
| Investigação no Congresso | Câmara, se os democratas vencerem | Alta: podem convocar autoridades e exigir documentos — mas não deportar |
| Extradição pedida pelo Brasil | Justiça e governo dos EUA | Incerta e lenta; tende a virar disputa sobre se ele é fugitivo ou perseguido político |
O que pode mudar o jogo: um eventual pedido de asilo não garante proteção automática. E a permanência dele depende de quem ocupa a Casa Branca: se um democrata vencer em novembro de 2028, o parole pode ser revisto a partir de 2029. Por isso, a eleição desta terça nos EUA também é acompanhada de perto em Brasília.
Mesmo com Flávio fora do país e sem mandato a partir de 2027, o bolsonarismo segue com peso: a família elegeu quatro dos oito integrantes que concorreram em 2026 (Nexo).
O paralelo com Obama: os dois países vivem a mesma pergunta — o que acontece com um movimento político quando o líder histórico não pode mais concorrer. Nos EUA, os democratas recorrem a Obama como fiador; no Brasil, a direita apostou num herdeiro do sobrenome Bolsonaro, que agora busca abrigo justamente no governo Trump.
Fontes
- NBC News — Obama descreve Trump como agente de “caos e crueldade” (24 out 2026)
- ABC7 — Obama e Trump na campanha (25 out 2026)
- Al Jazeera — Obama e Trump em comícios na Geórgia e em Ohio (29 out 2026)
- AOL — Roteiro de campanha de Trump e Obama
- Washington Examiner — Obama convocado diante da vantagem financeira do GOP
- Daily Beast — Obama entra na campanha
- Decision Desk HQ — Previsão 2026
- Poliwave — Previsão 2026
- Polymarket — Mercado das midterms
- CNBC — Wall Street se prepara para ganhos democratas
- ThePrint/Reuters — Aprovação de Trump em 32%
- National Security Journal — Médias de aprovação
- RealClearPolling — Primária democrata 2028
- Denver Gazette — Vance x Rubio no NYT/Siena
- Daily Beast — Rubio lidera na AtlasIntel
