Diretor da Quaest admite que pesquisas não viram a onda de eleitores que reelegeu Lula
Em artigo, Felipe Nunes diz que o instituto captou a virada de humor do eleitor, mas errou ao prever quem iria às urnas; véspera apontava Flávio à frente

O diretor da Quaest, Felipe Nunes, reconheceu em artigo publicado nesta quarta-feira (28) que as pesquisas do instituto não anteciparam a mobilização que levou quase 5 milhões de eleitores a mais às urnas no segundo turno e garantiu a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL).
No texto, intitulado “Dois turnos, dois plebiscitos”, Nunes afirma que a Quaest registrou as mudanças de percepção do eleitorado ao longo da campanha, mas admite que o comparecimento recorde pôs “em xeque” o modelo usado para estimar quem de fato vai votar.
O que as pesquisas mostraram e o que as urnas disseram
Na véspera da votação, tanto a Quaest quanto o Datafolha apontavam Flávio Bolsonaro com 51% dos votos válidos, contra 49% de Lula — empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos. O resultado oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deu a Lula 51,79% dos votos válidos, ante 48,21% de Flávio.
| Quaest (23–24/10) | Datafolha (23–24/10) | Resultado TSE | |
| Lula | 49% | 49% | 51,79% |
| Flávio Bolsonaro | 51% | 51% | 48,21% |
| Vantagem | Flávio +2 | Flávio +2 | Lula +3,58 |
Segundo cálculo da reportagem, o desvio foi de cerca de 2,8 pontos para cada candidato — acima da margem de erro — e de 5,6 pontos no saldo entre os dois. Os dois institutos, com amostras e equipes diferentes, chegaram exatamente ao mesmo número, o que sugere um problema comum de método, e não uma falha isolada.
O eleitor que o modelo deixou em casa
Nunes explica que a Quaest usa um filtro de “eleitor provável”, calibrado com o comportamento dos votantes entre 2010 e 2022. O modelo partia do pressuposto de que quem faltou ao primeiro turno continuaria ausente no segundo. Não foi o que aconteceu.
De acordo com o artigo, os faltosos do primeiro turno eram mais jovens, mais pobres e mais favoráveis a Lula, e a parcela deles que dizia que iria votar subiu 12 pontos em uma semana. Como o modelo assumia que esse eleitor ficaria em casa, as estimativas de votos válidos, nas palavras do diretor, “não detectaram o potencial de arrancada de Lula”.
Os números do comparecimento ajudam a dimensionar a surpresa. A abstenção caiu de 21,08% para 19,22%, a menor desde 2006, e recuou em oito de cada dez cidades. Brancos e nulos foram de 4,77% para 3,24%, o menor índice do século. A queda foi mais forte nas grandes cidades: em São Paulo, 277 mil eleitores a mais compareceram; no Rio, 156 mil, o suficiente para Lula virar na capital fluminense; em Salvador, 85 mil.
Dois plebiscitos
A tese central do artigo é que a eleição teve dois referendos. No primeiro turno, com Lula visto como favorito, o eleitor julgou um governo mal avaliado — 44% de aprovação e 49% de desaprovação — e Flávio saiu na frente. No segundo, quando a maioria passou a enxergar Flávio como provável vencedor, o foco virou a possibilidade da volta da família Bolsonaro ao poder, e o medo mudou de lado.
Segundo Nunes, esse movimento ocorreu entre os eleitores independentes, e não entre lulistas e bolsonaristas, cujas opiniões seguiram praticamente inalteradas. O diretor levanta ainda a hipótese de que o próprio empate técnico divulgado pelas pesquisas tenha levado parte do eleitorado a concluir que precisava votar.
“Pesquisa não é previsão”
Ao defender o trabalho do instituto, Nunes afirma que pesquisar opinião pública é entender padrões de comportamento, não prever resultados. Ele lembra que, no próprio domingo da eleição, escreveu que um efeito de mobilização poderia surpreender a favor de Lula — hipótese que, no entanto, não se refletiu nos números divulgados.
O artigo não informa o tamanho do desvio entre a pesquisa de véspera e o resultado. Nunes diz que a Quaest já está em campo com um estudo pós-eleitoral para entender onde e quando ocorreram as surpresas de 2026, com publicação prevista para breve.
Leia o artigo completo de Felipe Nunes no Globo: https://oglobo.globo.com/blogs/pulso/post/2026/10/dois-turnos-dois-plebiscitos-leia-artigo-de-felipe-nunes-diretor-da-quaest.ghtml
Fontes: artigo “Dois turnos, dois plebiscitos”, de Felipe Nunes (28/10/2026); TSE (resultado oficial do 2º turno); pesquisas Quaest/Globo (registro BR-09158/2026) e Datafolha/Folha-Globo (registro BR-09540/2026), divulgadas em 24/10/2026.
