As pesquisas viram a virada, mas não a publicaram
Datafolha e Quaest mediram o eleitor que decidiu a eleição — jovens, idosos e quem faltou no 1º turno —, mas o placar de capa o tratou como ausente. Mobilização de Janones, das ruas e dos artistas ajuda a explicar o desvio de quase 3 pontos.

Da Redação · Manaus, 26 de outubro de 2026
Na véspera do segundo turno, os dois institutos mais acompanhados do país chegaram ao mesmo número: Flávio Bolsonaro (PL) com 51% dos votos válidos e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 49%. Menos de 24 horas depois, o Tribunal Superior Eleitoral proclamou o contrário. Lula foi reeleito com 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos, contra 48,21% do senador — e se tornou o primeiro candidato da história a perder o primeiro turno e vencer o segundo.
A distância entre o que Datafolha e Quaest publicaram e o que saiu das urnas foi de 2,79 pontos para cada candidato, acima da margem de erro de dois pontos que ambos declararam. E não foram os únicos: um comparativo de 21 pesquisas nacionais da reta final mostra que todas deram a Lula menos votos do que ele obteve, e 17 erraram além da própria margem. Quando o erro é generalizado e vai sempre na mesma direção, a explicação está no método, não em um instituto isolado.
| Levantamento (votos válidos) | Lula | Flávio | Distância |
| Datafolha (24/10) | 49% | 51% | 2,79 p.p. |
| Quaest (24/10) | 49% | 51% | 2,79 p.p. |
| Resultado TSE (25/10) | 51,79% | 48,21% | — |
Fonte: TSE e registros BR-09540/2026 (Datafolha) e BR-09158/2026 (Quaest).
O eleitor que “não ia votar” foi votar
A principal chave para entender o desvio é o comparecimento. A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,21% no segundo — a maior queda entre turnos desde a redemocratização. Cerca de 3 milhões de pessoas a mais foram às urnas, e os votos brancos e nulos recuaram de 4,77% para 3,24%. Para dimensionar o fenômeno: em 2022, a maior queda de abstenção entre turnos havia sido de apenas 0,36 ponto. Modelos estatísticos se apoiam no histórico, e o histórico não previa um movimento dessa escala.
O ponto mais revelador é que os institutos tinham o sinal nas mãos. No levantamento de 24 de outubro, o Datafolha separou os entrevistados por propensão a comparecer. Entre os mais propensos, Flávio vencia por 52% a 48%; entre os de propensão média ou baixa, Lula vencia pelo mesmo placar. O diretor da Quaest, Felipe Nunes, também alertou na noite de sábado que uma abstenção menor do que a estimada poderia mudar o cenário, já que Lula era o candidato mais prejudicado pela ausência de eleitores. A tendência estava medida — só não foi convertida no número de capa.
Há um debate técnico legítimo por trás dessa escolha. Parte do setor considera arriscado ponderar resultados pela probabilidade de comparecimento, porque o ajuste poderia ser usado para empurrar números em qualquer direção. O contraponto é que ignorar o comparecimento também é uma decisão metodológica — e, nesta eleição, foi ela que separou o 51% a 49% do resultado real.
Os sinais que estavam fora da manchete
Outros indicadores já apontavam para o petista. Na Quaest da véspera, a rejeição a Flávio havia caído de 52% para 49%, mas seguia acima da de Lula, estável em 47%. O medo da volta da família Bolsonaro ao poder (45%) continuava superior ao temor de um novo mandato de Lula (42%). Rejeição mais alta que a do adversário, com um eleitorado mobilizado contra, costuma funcionar como teto eleitoral.
Pesou também o calendário. A coleta final da Quaest começou no próprio dia do debate da TV Globo e terminou no sábado, captando apenas parcialmente a repercussão do confronto, do caso Ana Clara e do relatório do Coaf sobre as movimentações do senador. Uma pesquisa qualitativa do instituto Travessia, feita para o Estadão, registrou que Lula levou vantagem entre os indecisos depois do debate.
O “Exército de Lula”: mobilização que questionário não mede
O deputado federal André Janones (Rede-MG) criou, em 5 de outubro, um canal de WhatsApp batizado de “Exército de Lula”. Em dois dias, o canal tinha quase 2 milhões de seguidores; ao fim da campanha, somava 10,8 milhões. A ferramenta distribuía áudios, vídeos e “missões” aos apoiadores e chegou a ser suspensa por uma liminar do ministro Kassio Nunes Marques, do TSE, em 11 de outubro, antes de ser liberada pelo ministro Floriano de Azevedo Marques.
A estratégia de Janones mirava justamente o ponto cego das pesquisas. Em vez de convencer indecisos, pedia que cada seguidor levasse mais três pessoas às urnas. Uma pesquisa mede intenção de voto; ela não consegue medir quem será arrastado até a seção eleitoral por um parente ou vizinho. No discurso da vitória, Lula chamou o deputado de “nosso general”.
A juventude da Paulista
Em 11 de outubro, a Avenida Paulista recebeu a Marcha pela Democracia, convocada por entidades estudantis, movimentos sociais, partidos e comunidades de fãs de artistas pop. Grupos ligados a BTS, Taylor Swift, Beyoncé, Lady Gaga e Anitta ajudaram a espalhar a convocação nas redes. Os números de público variam conforme a fonte: os organizadores falam em cerca de 1 milhão de pessoas; a Folha de S.Paulo registrou, por volta das 14h, as seis faixas da avenida e pelo menos três quarteirões tomados.
No palco, Lula fez acenos diretos à juventude e pediu que os presentes procurassem quem não havia votado no primeiro turno. O efeito apareceu nos números. Segundo o ex-diretor do Datafolha Mauro Paulino, o instituto registrava, no início de outubro, vantagem de Flávio entre eleitores de 16 a 24 anos (50% a 43%); na pesquisa final, o quadro havia se invertido, com 47% a 42% para Lula. Na faixa de 25 a 34 anos, o petista subiu de 42% para 46%.
Os eleitores de 60, 70 e mais de 100 anos
Se os jovens deram visibilidade à virada, os idosos deram volume. Pessoas com 60 anos ou mais representam 23,6% do eleitorado em 2026, segundo o TSE. Entre os maiores de 70, para quem o voto é facultativo, 8,77 milhões compareceram já no primeiro turno — contra 6,13 milhões em 2022, alta de cerca de 43%, conforme levantamento do Movimento Voto 70+ com dados do TSE.
Esse é exatamente o perfil que os modelos de comparecimento tendem a descontar. No ato da Paulista, Lula pediu explicitamente que os idosos saíssem de casa no dia 25. No domingo, as seções registraram histórias como a de Dona Edite, de 100 anos, em Barbalha (CE), que não havia votado no primeiro turno por causa do calor e das filas e voltou para o segundo; ou a de Olga Zanella, de 106 anos, em Caxias do Sul (RS).
Artistas arregaçam as mangas
A participação de artistas funcionou sobretudo como ponte para o público jovem e para os fandoms. O ato da Paulista contou com Baco Exu do Blues, Jão e o ator Humberto Carrão, entre outros nomes celebrados pela plateia, majoritariamente jovem. É o vetor mais difícil de isolar estatisticamente, mas ajuda a explicar por que a mobilização ganhou alcance fora da militância tradicional.
Erro, viés ou leitura apressada?
Desde o fim da apuração, circula nas redes a tese de que os institutos teriam evitado reconhecer a virada para preservar contratos e relações. É uma acusação sem comprovação até aqui: não há evidência de coordenação entre as empresas para produzir empate. O que os dados mostram é um método padronizado, com margens de erro declaradas, e uma leitura coletiva — de campanhas, mercado e imprensa — que transformou “empate técnico” em “Flávio deve vencer”.
A distinção importa. A primeira hipótese exige revisão de metodologia; a segunda exigiria investigação. E o tema já ganhou contornos políticos: Flávio Bolsonaro anunciou que não reconhece o resultado e pretende pedir a anulação do pleito, usando a divergência das pesquisas como argumento. Juristas avaliam que uma judicialização para anular o resultado geral é inviável.
Para o leitor, fica a lição prática: pesquisa eleitoral é retrato do momento, não prognóstico. Quando a diferença entre os candidatos é menor que a margem de erro, a informação honesta é a incerteza. E quando um instituto publica o recorte por propensão a comparecer, é ali — e não no placar de capa — que pode estar o dado decisivo.
Fontes consultadas
- TRE-SP — Lula é reeleito; resultado do 2º turno (tre-sp.jus.br)
- TVT News — Quaest divulga pesquisa na véspera do 2º turno (tvtnews.com.br)
- Mais Goiás — Dez das 12 pesquisas da véspera apontaram Flávio eleito (maisgoias.com.br)
- Rede 98 — As 21 pesquisas subestimaram Lula (rede98.com.br)
- Blog do Esmael — Pesquisas erraram ou não captaram o movimento das ruas (esmaelmorais.com.br)
- Revista Fórum — Felipe Nunes e o fator abstenção (revistaforum.com.br)
- Poder360 — Janones cria o “Exército de Lula” (poder360.com.br)
- TMC — Canal de Janones reuniu 10,8 milhões de seguidores (tmc.com.br)
- Revista Fórum — Perfil de André Janones (revistaforum.com.br)
- Nexo Jornal — Fandoms e mobilização política (nexojornal.com.br)
- DGABC — Lula faz aceno a jovens na Paulista (dgabc.com.br)
- ICL Notícias — Ato na Paulista e mobilização de quem não votou (iclnoticias.com.br)
- Blog do Cauê Rodrigues / Agência Brasil — Eleitores 70+ (blogdocauerodrigues.com.br)
- Portal Democrata — Eleitoras centenárias no 2º turno (portaldemocrata.com.br)
