Enquanto as pesquisas Quaest e Datafolha viam empate, modelo do Estadão cravou a vitória de Lula com 2,42% das urnas apuradas
Ferramenta de projeção em tempo real errou o resultado final por menos de 0,2 ponto percentual. Na véspera, Quaest e Datafolha mostravam Flávio Bolsonaro numericamente à frente.

Na noite de domingo (25), o país ainda acompanhava os primeiros boletins do TSE quando um modelo estatístico publicado pelo Estadão já apontava o desfecho do segundo turno. Com 2,42% das urnas apuradas, a projeção indicava a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL). Com 3,29% das seções contabilizadas, o jornal publicou no X a estimativa de Lula com 51,4% e Flávio com 48,6%. O resultado oficial consolidado pelo TSE foi de 51,79% contra 48,21%.
As pesquisas da véspera
A precisão chama atenção porque as últimas pesquisas não indicavam um favorito. A Quaest divulgada no sábado (24) dava a Flávio 51% dos votos válidos e a Lula 49%, com margem de erro de 2 pontos percentuais. O Datafolha da véspera registrou o mesmo placar nos válidos, 51% a 49% para Flávio, após ouvir 4.050 eleitores entre 23 e 24 de outubro.
O retrato era de equilíbrio desde o fim do primeiro turno. Em 4 de outubro, Flávio terminou na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. No Datafolha de 22 de outubro, os dois chegaram a aparecer empatados com 50% dos válidos cada. Um agregado das quatro principais pesquisas divulgadas na véspera chegou a 50,80% para Flávio e 49,20% para Lula.
Modelos acadêmicos baseados no histórico eleitoral também apontavam o senador como favorito. Um estudo de pesquisadores da FGV projetava 51,1% dos válidos para Flávio e estimava as chances de vitória de Lula entre 19% e 29,5%.
Ferramentas diferentes, perguntas diferentes
A comparação exige cuidado. Pesquisas eleitorais são retratos da intenção de voto dias antes da eleição e trabalham com margem de erro. O modelo do Estadão é outra coisa: uma projeção feita durante a apuração, com votos reais já depositados nas urnas. Ele não previu a eleição na véspera; antecipou o resultado de uma contagem que já estava em curso.
Mesmo assim, o resultado final ficou fora do que as pesquisas da véspera indicavam. Lula terminou com cerca de 2,8 pontos acima dos 49% atribuídos a ele por Quaest e Datafolha, diferença ligeiramente maior que a margem de erro declarada.
Quem criou e como funciona
O modelo foi desenvolvido por Rodrigo Mahlmeister, doutorando em ciência política pela Universidade Duke (EUA), mestre em ciência política pela USP e bacharel em economia pela mesma universidade.
Enquanto o TSE apura, o sistema compara os votos já contados em cada seção eleitoral com o que essas mesmas seções registraram no segundo turno de 2022 e no primeiro turno de 2026. Com isso, mede quanto o voto está mudando em cada tipo de lugar e aplica essa variação às seções que ainda faltam. A projeção final soma o já apurado com essa estimativa. O intervalo de confiança começa largo e se estreita conforme a apuração avança, e o próprio Estadão ressalta que não se trata de uma projeção oficial.
A lógica explica por que a ferramenta resiste às distorções do início da apuração. Os primeiros boletins costumam refletir regiões que contam mais rápido, o que pode inflar artificialmente um candidato. Ao comparar cada seção com seu próprio histórico, o modelo corrige esse viés geográfico e, segundo o jornal, antecipou as duas viradas de posição ocorridas na marcha da apuração.
Já havia funcionado no primeiro turno
O desempenho de domingo repetiu o de 4 de outubro. Com 10% das seções apuradas no primeiro turno, a contagem mostrava Lula com 41,0% e Flávio com 50,8%, mas a projeção já marcava 45,2% e 47,1%. O resultado final foi 45,16% e 47,03%. A partir de 3% das seções, a projeção não se afastou mais de meio ponto do número final.
Contexto pós-eleição
A precisão do modelo ganha relevância num momento em que circula uma campanha de desinformação com a falsa tese de que a vitória de Lula seria “matematicamente impossível”. A convergência entre a projeção estatística, feita seção por seção, e o resultado oficial do TSE é um dado que contradiz essa narrativa.
Fontes
- Terra/Estadão Conteúdo – Projeção da apuração do 2º turno (metodologia)
- Estadão – Modelo estatístico antecipou resultado com 2,42% das urnas
- O Liberal – Quaest de 24/10
- Mais Goiás – Agregado das pesquisas de 24/10
- SBT News – Datafolha de 22/10
- DGABC – Resultado do 1º turno
- FGV EAESP – “Lula contra a matemática no 2º turno”
