“Mulher vota muito mal”: o eco de um velho preconceito e o racha na direita bolsonarista

Manaus/Brasília — 1º de julho de 2026
Noventa e quatro anos depois de o Brasil garantir às mulheres o direito de votar, uma frase de um influenciador bolsonarista reacendeu, em plena pré-campanha presidencial, um debate que muitos julgavam superado: o de que o voto feminino vale menos, ou é exercido de forma menos racional, do que o masculino.
A fala que detonou a crise
O empresário e influenciador Paulo Figueiredo — neto do último presidente da ditadura militar, João Baptista Figueiredo, e hoje radicado nos Estados Unidos como uma das pontes entre o bolsonarismo e o governo americano — afirmou em uma live no YouTube que “mulher vota muito mal”, especialmente as solteiras, já que as casadas tenderiam a seguir o voto dos maridos. A declaração vinha em resposta a um vídeo da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que acusara o enteado Flávio Bolsonaro de maltratá-la em meio a divergências sobre palanques estaduais do PL. Diante da repercussão negativa, Figueiredo insistiu no tom em nova publicação, endurecendo ainda mais a formulação original.
No mesmo pronunciamento, o influenciador chamou de “feministas” tanto Michelle quanto a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos — um rótulo usado ali como ofensa, associado por ele a uma “matriz marxista”.
Uma analogia que atravessa quase um século
A frase de Figueiredo dialoga, ainda que involuntariamente, com um argumento que serviu por décadas para justificar a própria exclusão das mulheres das urnas: o de que elas não teriam capacidade ou autonomia para decidir seu voto. Foi só em 24 de fevereiro de 1932, pelo Código Eleitoral do governo provisório de Getúlio Vargas, que o Brasil reconheceu formalmente o direito de voto sem distinção de sexo — resultado de mais de cinquenta anos de mobilização liderada por sufragistas como Bertha Lutz. Antes disso, pioneiras como Celina Guimarães Viana, no Rio Grande do Norte, precisaram se valer de brechas na legislação estadual para votar já em 1927.
O Amazonas integrou essa primeira geração de conquistas: já na eleição de 1933 para a Assembleia Nacional Constituinte, o estado esteve entre os poucos a eleger mulheres para o parlamento estadual, ao lado de Alagoas, Bahia, Minas Gerais, São Paulo e Sergipe — um dado pouco lembrado, mas que situa Manaus dentro da linha de frente da conquista política feminina no país. A ideia de que existiria um “jeito errado” de votar — atribuído a solteiras, a mulheres “influenciáveis” ou a quem discorda do marido — repete, sob nova roupagem, o mesmo raciocínio tutelar que a legislação de 1932 tentou (parcialmente) superar. Não por acaso, colunistas e lideranças políticas classificaram a frase de Figueiredo como um retrocesso simbólico, mais do que como um deslize isolado.
O boicote das mulheres da direita
A reação mais contundente, porém, não veio da esquerda, mas de dentro do próprio campo bolsonarista. Um café da manhã organizado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nesta quarta-feira, em Brasília, para reaproximar sua pré-candidatura presidencial do eleitorado feminino, terminou esvaziado pela ausência de nomes centrais da direita: Michelle Bolsonaro, que havia deixado a presidência do PL Mulher no dia anterior; a senadora Damares Alves; a senadora Tereza Cristina (PP-MS); e a deputada Margareth Buzetti (PP-MT).
Damares chegou a dizer publicamente que estava “orando” para decidir se compareceria — resposta que Figueiredo ironizou nas redes, questionando se ela poderia contar como apoiadora de Flávio. O desconforto de Damares cresceu ainda mais depois que outro aliado da família Bolsonaro fez insinuações sobre sua vida pessoal, segundo apuração da coluna de Malu Gaspar, no jornal O Globo.
Compareceram ao encontro, entre outras, as deputadas Bia Kicis, Júlia Zanatta, Chris Tonietto, Daniela Reinehr e Soraya Santos — um público descrito por aliados do próprio senador como concentrado no núcleo mais fiel do bolsonarismo, sem alcançar o objetivo inicial de dialogar com eleitoras de centro.
Flávio tenta se distanciar, mas o estrago já estava feito
Somente durante o evento, dias depois da repercussão inicial, Flávio Bolsonaro repudiou publicamente a fala de Figueiredo, chamando-a de “completamente equivocada” e afirmando que o influenciador “não faz parte” de sua campanha — embora reconheça que ele segue como um de seus principais articuladores políticos nos Estados Unidos. O senador disse ter se sentido pessoalmente ofendido, já que a generalização incluiria também sua esposa, e atribuiu à própria “falta de competência” a dificuldade de sua pré-candidatura junto ao eleitorado feminino.
Em resposta, Figueiredo manteve o posicionamento, afirmando que Flávio está certo em repudiá-lo publicamente, mas que ele próprio não pretende recuar do que disse.
Os números por trás da crise
O episódio ocorre num momento eleitoralmente sensível: pesquisa Datafolha mostra Lula à frente de Flávio por ampla margem entre as mulheres em simulação de segundo turno, enquanto o senador leva vantagem entre os homens. Como as eleitoras representam a maioria do eleitorado brasileiro, a fala de Figueiredo — somada ao rompimento público com Michelle — atingiu diretamente o ponto mais frágil da pré-campanha bolsonarista.
O que fica
Passadas quase dez décadas da conquista do voto feminino — uma luta em que também o Amazonas teve papel pioneiro ao eleger mulheres já nas primeiras disputas sob o novo Código Eleitoral —, a controvérsia expõe como a ideia de que existe um voto feminino “certo” ou “errado” continua sendo mobilizada politicamente, agora não mais para negar o direito ao voto, mas para deslegitimar o resultado dele quando desfavorável a um projeto político. A reação das próprias lideranças femininas da direita, ao boicotarem o evento, sinaliza que esse argumento encontrou resistência mesmo dentro do campo que o influenciador pretendia defender.
Reportagem elaborada com base em apuração de CNN Brasil, O Tempo, CartaCapital, Notícias ao Minuto Brasil, Brasil 247, Jornal de Brasília e Revista Fórum, além de fontes históricas do TSE, TREs e Câmara dos Deputados sobre a conquista do voto feminino no Brasil.
