No G-7, Lula mira Trump sem citar o nome: critica tarifaços e defende soberania no combate ao crime
Em reunião ampliada na França, presidente brasileiro ataca protecionismo e unilateralismo — retórica que também rende dividendos eleitorais em ano de disputa presidencial

O CENÁRIO
Com Donald Trump sentado praticamente à sua frente na mesa de cúpula, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu Évian-les-Bains, nos Alpes Franceses, para disparar suas críticas mais contundentes ao governo norte-americano desde o início das tensões comerciais entre os dois países. Sem pronunciar o nome do republicano uma única vez, Lula fez do palco do G-7 ampliado um palanque contra o protecionismo e o unilateralismo — políticas que identificam, com precisão, a agenda da chamada “Doutrina Donroe” de Trump.
A sessão — cujo tema oficial era “firmar novas parcerias e reconstruir a solidariedade internacional” — foi fechada à imprensa. Além do Brasil, participaram Índia, Coreia do Sul, Egito e Quênia, bem como representantes do Banco Mundial e do Banco Africano de Desenvolvimento.
OS ALVOS E AS CRÍTICAS
O discurso de Lula foi estruturado em torno de dois eixos diretamente relacionados a decisões recentes de Washington. O primeiro foi econômico: “O neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias. Agora, o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”, afirmou o presidente.
A fala ocorreu no contexto das tarifas anunciadas pelo governo Trump ao Brasil: em 2 de junho, o Escritório Comercial dos Estados Unidos (USTR) propôs uma alíquota geral de 25% sobre produtos brasileiros — acrescida de mais 12,5% sob alegação de omissão no combate ao trabalho forçado na cadeia produtiva.
O segundo eixo foi a segurança pública. Lula afirmou que o enfrentamento ao crime organizado transnacional deve respeitar “a soberania dos Estados” — numa referência direta à classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelo Departamento de Estado norte-americano. “Esse esforço deve levar em conta o respeito à soberania dos Estados”, disse.
O CONTEXTO ELEITORAL
A retórica da soberania não é nova no repertório de Lula, mas ganhou volume desde que Trump impôs sanções ao Brasil durante o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe. Neste ano, a aposta foi redobrada após o pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro, visitar Trump na Casa Branca dias antes do anúncio das tarifas — visita que o Palácio do Planalto explorou politicamente como evidência de coordenação entre a oposição brasileira e o governo norte-americano.
A CRÍTICA A MUSK E ÀS DESIGUALDADES GLOBAIS
Lula também abordou a concentração extrema de riqueza no mundo, fazendo referência implícita a Elon Musk — hoje o único trilionário do planeta — ao afirmar que uma única pessoa detém mais riqueza do que 46% dos habitantes mais pobres do mundo. “A extrema concentração de riqueza decorre de décadas de políticas pró-bilionários”, disse.
O presidente ainda criticou a retração dos gastos multilaterais, citando cortes no financiamento ao Programa Mundial de Alimentos, à Organização Mundial da Saúde e ao UNICEF — uma referência ao esvaziamento promovido pelo governo Trump em organismos internacionais. Também chamou atenção para o volume dos gastos militares globais, que somam cerca de 3 trilhões de dólares anuais.
O ENCONTRO QUE NÃO ACONTECEU
A ida de Lula à França foi confirmada de última hora — anunciada logo após o USTR propor as novas tarifas, com o presidente declarando “agora eu vou”. A coincidência alimentou especulações sobre uma possível reunião bilateral com Trump nas margens do evento, à semelhança do que ocorreu na Assembleia-Geral da ONU no ano passado.
O governo brasileiro descartou a hipótese: fontes do Palácio do Planalto afirmaram que um simples “encontro de corredor” seria insuficiente para tratar de um tema da complexidade do tarifaço. Lula e Trump não trocaram palavras durante a recepção nem após a foto de família — na qual o presidente brasileiro posou na ponta esquerda de Emmanuel Macron, ao lado da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do chanceler alemão, Friedrich Merz.
MERCOSUL E JAPÃO: AGENDA POSITIVA
À margem do G-7, Lula também se reuniu com a primeira-ministra do Japão e demonstrou entusiasmo com a perspectiva de avanços no acordo comercial entre o Mercosul e Tóquio. O próximo passo deve ocorrer em 30 de junho, na reunião do bloco sul-americano. Segundo o presidente, o encontro foi também uma oportunidade para tratar do potencial brasileiro em terras raras — minerais críticos para a cadeia de tecnologia e energia limpa que despertam crescente interesse do Japão.
Matéria produzida com base em informações da cobertura do G-7 em Évian-les-Bains.
