Reportagem

Tarifaço dos EUA: nova sobretaxa de 25% reacende crise com o Brasil e põe Zona Franca de Manaus em alerta

O governo dos Estados Unidos oficializou, na madrugada desta quinta-feira (16/7), a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre uma ampla lista de produtos brasileiros. A medida, confirmada pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) com base em investigação da Seção 301 da lei de comércio americana, entra em vigor às 00h01 de Washington do dia 22 de julho — 1h01 no horário de Brasília. Mercadorias já embarcadas ou em trânsito final rumo aos EUA antes desse prazo ficam livres da nova cobrança.

Diferente da tarifa de 50% imposta em agosto de 2025 — vinculada ao processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e parcialmente revertida depois que a Suprema Corte americana limitou o uso da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) —, a nova sobretaxa tem base jurídica distinta e mais consolidada: a Seção 301, usada historicamente contra práticas comerciais consideradas desleais. Segundo o USTR, a medida responde a questões como a regulação do sistema de pagamentos Pix, políticas de comércio digital, propriedade intelectual e desmatamento.

O que fica de fora

A lista de exceções amplia o alívio em relação à proposta original de junho. Ficam isentos: carne bovina, café, laranja e suco de laranja, petróleo bruto, celulose, fertilizantes, minério de ferro, gás natural, semicondutores, produtos farmacêuticos, peixes e crustáceos, além de partes para fabricação de aeronaves civis. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a tarifa deve atingir cerca de US$ 15 bilhões em exportações anuais, envolvendo perto de 2.900 itens industrializados.

O componente político: Rubio x Mauro Vieira

A tensão diplomática ganhou contornos pessoais nas últimas 24 horas. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, atribuiu a decisão à falta de disposição do governo brasileiro para negociar. Em publicação nas redes sociais, afirmou que o presidente Lula “não negociou com os EUA de boa-fé” e disse que Lula colocou o próprio ego à frente de um acordo que beneficiasse o povo brasileiro, chamando as tarifas de consequência dessa postura.

A resposta do Itamaraty veio pela voz do chanceler Mauro Vieira, que classificou as alegações americanas como sem lastro na realidade e chamou as declarações de Rubio de inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros. Vieira detalhou que o Brasil participou de mais de 30 reuniões com autoridades dos EUA e apresentou duas defesas formais ao USTR durante a investigação da Seção 301, contrariando a narrativa de desengajamento. Ele também retomou a cronologia da crise, lembrando que a carta enviada por Trump a Lula em 9 de julho de 2025 elevou as tarifas a 50% por motivação política, como forma de pressionar o Judiciário brasileiro no caso Bolsonaro.

Nos bastidores do Palácio do Planalto, avalia-se que a fala de Rubio reflete o fortalecimento da ala mais ideológica do governo Trump, ligada ao movimento MAGA, que ganhou espaço após a aproximação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e a Casa Branca durante audiência pública do USTR realizada nos dias 6 e 7 de julho — ocasião em que o governo brasileiro optou por não enviar representação oficial. Ainda assim, auxiliares do presidente afirmam que a aposta segue sendo o contato direto entre Lula e Trump para conter novas medidas unilaterais. Como resposta institucional, o governo brasileiro classificou a tarifa como um “marco lastimável” nas relações bilaterais e anunciou que vai recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) e acionar a recém-aprovada Lei de Reciprocidade Econômica.

A resposta institucional: como funciona a Lei da Reciprocidade

Sancionada em abril de 2025 pelo Congresso Nacional — em meio à primeira onda do tarifaço americano — a Lei da Reciprocidade Econômica (originada do PL 2088/2023, de autoria da senadora Tereza Cristina) foi o instrumento jurídico criado para que o Brasil deixasse de depender apenas de negociação diplomática e passasse a ter respaldo legal para reagir a medidas comerciais unilaterais de outros países. Antes da lei, o governo brasileiro não podia aplicar tarifas de forma unilateral contra outra nação.

A norma permite acionar contramedidas quando um país ou bloco econômico: interferir em decisões soberanas do Brasil por meio de ameaças ou imposição de medidas comerciais, financeiras ou de investimento; violar acordos comerciais firmados com o país, negando ou anulando seus benefícios; ou aplicar exigências ambientais unilaterais mais rigorosas do que os padrões já adotados internamente.

Entre as contramedidas previstas estão a aplicação de tarifas adicionais equivalentes sobre produtos do país que originou a barreira, a suspensão de concessões comerciais, a restrição a patentes e remessas de royalties, e a revisão de benefícios ligados a acordos bilaterais. O processo, no entanto, não é automático: um decreto presidencial que regulamenta a lei estabelece dois ritos possíveis — o ordinário, encaminhado à Camex (Câmara de Comércio Exterior) para casos não urgentes, com consulta pública antes de qualquer decisão; e o expresso, avaliado por um comitê interministerial para situações mais urgentes. Esse comitê é coordenado pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, com representantes da Casa Civil, da Fazenda e do Itamaraty.

Pela legislação, a Camex tem até 30 dias para um exame de admissibilidade do processo; se aceito, forma-se um grupo de trabalho e o país-alvo tem direito a apresentar defesa antes de qualquer contramedida ser efetivamente aplicada. Ou seja, mesmo com o acionamento anunciado nesta quinta-feira, uma eventual retaliação brasileira ainda depende de etapas técnicas e diplomáticas, e o governo sinaliza que vai priorizar a via multilateral — recorrer à OMC — em paralelo ao processo interno.

Vale lembrar que o mecanismo já havia sido acionado, e depois suspenso, durante a crise da tarifa de 50% em 2025, quando uma decisão da Suprema Corte americana levou à reversão parcial daquela medida. Agora, integrantes do governo indicam que o processo de reciprocidade deve ser retomado, dentro do que descrevem como uma avaliação cautelosa — o desafio é escolher contramedidas que pressionem Washington sem gerar prejuízo maior à própria economia brasileira, dado que o comércio bilateral é historicamente superavitário para os EUA.

Impacto na economia brasileira: números dividem opiniões

Apesar da repercussão política, a maioria dos economistas ouvidos pela imprensa nas últimas horas converge para um diagnóstico de impacto macroeconômico limitado. Segundo boletim da Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda, o mercado americano respondeu por cerca de 11% das exportações brasileiras em 2025 — o equivalente a menos de 2% do PIB nacional. A pasta avalia que as exportações já mostraram resiliência após o tarifaço de agosto de 2025, com recuperação gradual desde novembro, e que a ampliação da lista de exceções tende a manter o efeito agregado modesto.

Projeções específicas variam: enquanto alguns cálculos apontam recuo de apenas 0,1% a 0,2% no PIB — justamente por conta da isenção de setores pesados como agronegócio e aviação —, outras estimativas de mercado trabalham com uma faixa mais ampla, de 0,3 a 0,6 ponto percentual em 2026, com efeito indireto sobre câmbio, crédito e confiança que pode ser mais duradouro que o choque direto do comércio. No cenário mais pessimista, esse recuo equivaleria a algo entre R$ 15 bilhões e R$ 38 bilhões em consumo das famílias ao longo do ano. A CNI, por sua vez, alerta que a sobretaxa agrava um cenário já pressionado: as vendas aos Estados Unidos vinham em queda desde a tarifa anterior.

No mercado financeiro, a reação inicial foi de cautela mais do que pânico: o Ibovespa abriu a quinta-feira em compasso de espera, oscilando perto dos 176 mil pontos, refletindo o equilíbrio entre a notícia negativa de Washington e a resiliência de setores voltados ao mercado interno. Analistas apontam que o maior risco não está no PIB em si, mas na política monetária — a pressão cambial tende a dificultar novos cortes da Selic pelo Copom.

Zona Franca de Manaus: incentivo interno não blinda exportação

Para a indústria instalada no Polo Industrial de Manaus (PIM), a mensagem das entidades de classe é de cautela redobrada. O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antônio Silva, reforça um ponto técnico central: os incentivos fiscais da Zona Franca operam estritamente no âmbito interno brasileiro. Ou seja, ao cruzar a fronteira rumo ao mercado americano, o produto fabricado em Manaus perde essa proteção e paga a tarifa cheia, como qualquer outro item brasileiro — o que, segundo Silva, encarece diretamente as exportações e exige reavaliação de custos das indústrias locais para preservar competitividade.

Os setores da ZFM apontados como mais expostos à sobretaxa incluem motocicletas e seus componentes, dispensadores de papel-moeda, lentes, insumos para bebidas e produtos de madeira. Já o segmento eletroeletrônico e de informática — que sozinho respondeu por 37,7% do faturamento do polo em 2025 (R$ 86,38 bilhões) — tem, por ora, avaliação mais tranquila: representante da Suframa afirmou não identificar reflexos relevantes para essa indústria no momento, ainda que a tarifa se aplique normalmente a qualquer produto que se enquadre na medida americana, independentemente de ter sido produzido na Zona Franca.

Colocado em perspectiva, o peso direto dos Estados Unidos no comércio exterior do Amazonas é relativamente pequeno: os EUA não são o principal destino das exportações da ZFM — posição ocupada por países latino-americanos como Argentina e Colômbia — e a balança da região é estruturalmente deficitária, com importações de US$ 14,7 bilhões contra exportações de apenas US$ 664,6 milhões em 2025. Ainda assim, o alerta de lideranças locais é que qualquer barreira adicional ao mercado americano tende a pressionar cadeias produtivas específicas e a exigir diversificação de mercados — um movimento que a própria SPE já credita, em parte, por ter amortecido o impacto da tarifa de 50% do ano passado.

Cronologia rápida

DataEvento
9/7/2025Carta de Trump a Lula ameaça tarifa de 50%, citando o processo contra Bolsonaro
6/8/2025Tarifa de 50% entra em vigor, com exceções para aviação, energia e outros itens
1/6/2026USTR propõe tarifa adicional de 25% após investigação da Seção 301
6–7/7/2026Audiência pública do USTR sobre a nova tarifa; Brasil não envia representação oficial
15/7/2026USTR confirma oficialmente a tarifa de 25%; Rubio culpa Lula publicamente
16/7/2026Itamaraty rebate Rubio pela voz do chanceler Mauro Vieira; governo anuncia acionamento da Lei da Reciprocidade
22/7/2026Tarifa de 25% entra efetivamente em vigor

Reportagem elaborada com base em apuração de veículos como Poder360, ND Mais, Correio Braziliense, O Tempo, Revista Oeste, Movimento Econômico, Revista Cenarium, Exame, CNN Brasil, Brasil de Fato e Forbes, além de dados oficiais da Suframa, CNI e Ministério da Fazenda.

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