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Brasil bate recorde de conectividade, mas deixa para trás um “núcleo duro” de 17,7 milhões de pessoas sem internet

Levantamento do IBGE mostra que quem ainda está fora da rede é, majoritariamente, idoso, tem baixa escolaridade e não sabe usar o serviço — um perfil que resiste mesmo após uma década de expansão do acesso no país

O retrato de quem ficou de fora

Enquanto o Brasil se aproxima da universalização do acesso à internet, um grupo específico segue resistindo à conexão. São 17,7 milhões de pessoas com dez anos ou mais que não usaram a rede nos três meses anteriores às entrevistas da Pnad Contínua em 2025 — o menor número desde o início da série histórica do IBGE, em 2016. No mesmo período, 19,1 milhões de brasileiros dessa faixa etária não tinham celular para uso pessoal.

Juntos, os dois contingentes formam um público maior do que a população inteira do Rio de Janeiro (17,2 milhões de habitantes, a terceira maior do país). A diferença é que, ano após ano, esse grupo vem encolhendo — e o que resta dele revela menos sobre infraestrutura e mais sobre quem o Brasil ainda não conseguiu alcançar.

Não é falta de rede, é falta de saber usar

Se nos primeiros anos da série histórica o preço e a falta de sinal explicavam boa parte da exclusão digital, hoje o obstáculo é outro: 44,9% das pessoas sem internet em 2025 disseram simplesmente não saber usá-la — motivo que sobe para 66,5% entre os idosos. Para ter celular, a lógica se repete: 31,1% da população sem aparelho apontou o mesmo motivo, percentual que chega a 61% na terceira idade.

Esse dado reposiciona o problema: não se trata mais, na maior parte dos casos, de levar cabos e antenas a lugares remotos, mas de letramento digital — ensinar a usar o que, em tese, já está disponível.

Um Brasil que envelhece longe da tela

Os idosos de 60 anos ou mais são, disparadamente, o maior grupo entre os desconectados: 51,5% de quem não usa internet e 36,9% de quem não tem celular pertencem a essa faixa etária. É um contraste com o discurso recente sobre inclusão digital da terceira idade — programas como o Computadores para Inclusão e o Wi-Fi Brasil, do Ministério das Comunicações, têm levado à alta de pessoas idosas conectadas nos últimos anos, mas ainda não foi suficiente para reverter o quadro geral.

O segundo maior grupo é o oposto na pirâmide etária: crianças e adolescentes de 10 a 13 anos respondem por 10,3% dos sem internet e 27,4% dos sem celular. Mas, diferentemente dos idosos, a explicação não é o desconhecimento — é a escolha. Entre os mais jovens, os motivos mais citados foram a falta de necessidade (33,8%) e a preocupação dos responsáveis com privacidade e segurança (30,3%), já que a pesquisa domiciliar do IBGE permite que pais respondam pelos filhos menores de idade.

Escolaridade ainda separa quem está dentro e fora da rede

O corte educacional é o mais contundente de todos: 73,6% de quem não usa internet e 81,5% de quem não tem celular têm no máximo o ensino fundamental incompleto ou nenhuma instrução. É a evidência mais clara de que a exclusão digital no Brasil de 2025 caminha lado a lado com a desigualdade educacional — e não apenas com a idade ou a renda.

O outro lado do gráfico: a conexão que avançou

Os números de 2025 são a ponta mais recente de uma curva ascendente. Em 2024, o número de pessoas conectadas à internet havia aumentado em 6,1 milhões em dois anos, atingindo 89,1% da população com 10 anos ou mais — ante 79,5% em 2019 e apenas 66,1% em 2016, início da série. O avanço também mudou de endereço: Norte e Nordeste lideraram a expansão do acesso entre 2019 e 2024, reduzindo uma desigualdade regional que por décadas concentrou a conectividade no Centro-Sul do país.

Do lado dos domicílios, o retrato de 2024 mostrava 5,1 milhões de lares sem uso de internet, com 94,7% de cobertura nas áreas urbanas contra 84,8% nas rurais — e o celular já despontava como a porta de entrada quase unânime para a rede: 98,8% de quem acessava a internet o fazia pelo telefone móvel.

Quadro-resumo: exclusão digital no Brasil

Indicador2025
Pessoas de 10 anos+ sem uso de internet (3 meses)17,7 milhões (9,5% da população)
Pessoas de 10 anos+ sem celular para uso pessoal19,1 milhões (10,2% da população)
População de 10 anos+ no Brasil186,4 milhões
ComparaçãoContingente maior que a população do Rio de Janeiro (17,2 milhões)
Sem instrução/fundamental incompleto entre os sem internet73,6%
Sem instrução/fundamental incompleto entre os sem celular81,5%
Idosos (60+) entre os sem internet51,5%
Idosos (60+) entre os sem celular36,9%
Crianças/adolescentes (10-13 anos) entre os sem internet10,3%
Crianças/adolescentes (10-13 anos) entre os sem celular27,4%
Principal motivo para não usar internet (geral)Não sabe usar (44,9%)
Principal motivo para não usar internet (idosos)Não sabe usar (66,5%)
Principal motivo para não ter celular (geral)Não sabe usar (31,1%)
Principal motivo para não ter celular (idosos)Não sabe usar (61%)
Principais motivos entre crianças/adolescentes (10-13)Falta de necessidade (33,8%) e privacidade/segurança (30,3%)
Para contexto (2024, domicílios)
Pessoas conectadas à internet89,1% da população de 10 anos+
Evolução da conectividade66,1% (2016) → 79,5% (2019) → 89,1% (2024)
Domicílios sem uso de internet5,1 milhões
Cobertura de internet nos domicílios urbanos94,7%
Cobertura de internet nos domicílios rurais84,8%
Acesso à internet via celular98,8% dos usuários

Fontes: IBGE/Pnad Contínua (dados de 2025 fornecidos e dados de 2024 do módulo TIC, divulgado em julho de 2025); Ministério das Comunicações.

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