Peixe “monstro” de 50 quilos bomba nas redes: tambaqui gigante flagrado em feira do Amazonas intriga até biólogos
Vídeo gravado em Coari já soma mais de 1,4 milhão de visualizações; tamanho do exemplar, raro mesmo para padrões amazônicos, é atribuído a décadas de menor pressão da pesca sobre a espécie

Um tambaqui gigante, tratado a duras penas por um feirante experiente, virou sensação nas redes sociais nesta semana. O vídeo, gravado no município de Coari, no interior do Amazonas, já ultrapassa 1,4 milhão de visualizações e chamou atenção pelo tamanho fora do comum do peixe — um dos maiores símbolos da culinária amazônica, normalmente vendido nas feiras com 4 a 6 quilos.
## O vídeo que viralizou
O registro é do influenciador Silvio Junior Rodrigues, que produz conteúdo sobre a cultura e o cotidiano da região. Nas imagens, quem enfrenta o desafio de tratar o animal é o pescador e feirante Raimundo “Bigode”, com cerca de 40 anos de estrada na atividade.
“Ele vai tratar um tambaqui de 50 quilos! Quase ele não consegue abraçar um peixe desse”, narra Silvio no vídeo, destacando o esforço para lidar com o exemplar.
Em entrevista ao g1, o influenciador contou que costuma gravar na Feira Municipal de Coari justamente para mostrar curiosidades da Amazônia — e que, embora peixes grandes ainda apareçam na região, eles são raridade em centros urbanos como Manaus.
“É até comum peixes desse tipo aqui na região. Não é muito comum em Manaus, porque o valor é maior. Eu sempre quis mostrar para as pessoas o valor da nossa cultura e da nossa região, por isso sempre posto essas curiosidades”, afirmou.
## Peixe grande assim? Biólogo confirma que é raro
A repercussão levou especialistas a comentar o fenômeno. Segundo o biólogo Endiberg Oliveira, tambaquis acima de 30 quilos são hoje considerados raros — mesmo com a onda recente de vídeos mostrando exemplares parrudos.
“Atualmente não são tão comuns tambaquis acima de 30 quilos, mas no passado já tivemos tambaquis de até 50 quilos. Um desses exemplares está depositado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e foi capturado há mais de 40 anos”, explicou.
Para o especialista, o aumento nos registros de peixes grandes pode estar ligado a uma combinação de fatores:
– 🐟 maior tempo de vida dos animais;
– 🐠 disponibilidade de alimento;
– 🎣 mudanças na atividade pesqueira ao longo das últimas décadas.
“O que pode estar causando esse aumento nos tamanhos dos tambaquis capturados recentemente é uma combinação de fatores, como idade, alimentação e genética. Eles podem estar vivendo mais devido às mudanças nas atividades de pesca nos últimos 50 anos”, disse.
## Por que os tambaquis estão “crescendo”?
Oliveira explica que a pressão sobre a pesca do tambaqui caiu de forma significativa desde a década de 1970. Na época, a espécie respondia por cerca de 70% do pescado desembarcado na região amazônica. Hoje, esse número gira em torno de 5%, enquanto espécies como jaraqui, sardinha e pacu passaram a dominar cerca de 60% do volume comercializado.
Para o pesquisador, esse cenário — somado ao crescimento da criação de peixes em tanques e viveiros — pode estar favorecendo a recuperação dos estoques naturais.
“O consumo de tambaquis jovens, conhecidos como ruelos, produzidos em piscicultura para abastecer o mercado, reduziu a pressão sobre os exemplares selvagens. Isso pode estar permitindo que alguns peixes vivam mais e atinjam tamanhos maiores”, afirmou.
O biólogo lembra ainda que, décadas atrás, tambaquis gigantes eram cena comum nos mercados da capital.
“Na década de 1970, no Mercado Adolpho Lisboa, em Manaus, era comum encontrar tambaquis tão grandes que eram vendidos em pedaços de dois a cinco quilos. Hoje, a tradicional banda de tambaqui normalmente é retirada de peixes com até cinco quilos”, destacou.
## Tendência ou coincidência? Ciência ainda não tem resposta
Apesar da hipótese animadora de recuperação da espécie, Endiberg Oliveira faz uma ressalva: ainda não dá para afirmar que os tambaquis estejam ficando maiores de forma generalizada.
Segundo ele, são necessários novos estudos sobre a dinâmica populacional dos peixes amazônicos para confirmar se o aparecimento de exemplares gigantes é mesmo uma tendência de recuperação dos estoques — ou apenas registros pontuais que ganharam mais visibilidade com as redes sociais.
“O tamanho dos jaraquis consumidos nos mercados diminuiu sensivelmente nos últimos 20 anos por causa da maior pressão de pesca. Com o tambaqui, pode estar ocorrendo o inverso, principalmente devido à Lei do Defeso e ao fortalecimento da piscicultura. Mas precisamos de mais pesquisas para compreender com clareza o que realmente está acontecendo”, concluiu.
