Política

Maioria nas urnas, minoria no poder

Quem são as mulheres que vão decidir as eleições no Amazonas em 2026

Pela primeira vez com folga, as mulheres vão decidir sozinhas quem governa o Amazonas. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgados em 20 de julho, o estado terá 2.801.182 eleitores aptos a votar no primeiro turno, em 4 de outubro — e cerca de 51% desse total, o equivalente a 1.441.078 pessoas, são mulheres. Os homens somam 1.361.012, ou 49%. O número consolida uma tendência que já vinha sendo registrada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) desde o início do ano: em março, o órgão apontava 51,5% de eleitorado feminino, com uma expectativa de que o percentual ainda subisse até o fechamento do cadastro eleitoral.

O crescimento não é exclusividade do Amazonas — nacionalmente, as mulheres também são maioria, com 52,84% do eleitorado brasileiro —, mas no estado ele carrega um peso concreto: mais da metade das mais de 2,8 milhões de pessoas aptas a votar em outubro decide, sozinha, o resultado da eleição para governo do estado, Senado e Câmara dos Deputados.

Um eleitorado mais velho e mais concentrado na meia-idade

O perfil etário do eleitorado amazonense também mudou nos últimos anos. Levantamentos anteriores do TRE-AM mostravam que os jovens de 18 a 29 anos representavam cerca de 31,6% do total de eleitores, enquanto a faixa de 60 a 69 anos correspondia a 13,9%. O movimento acompanha uma tendência nacional: segundo o TSE, o maior grupo etário do país em 2026 é o de 40 a 44 anos, e a participação de eleitores com 60 anos ou mais no total nacional subiu de 21% para 23,6% em relação a 2022 — reflexo do envelhecimento da população e também da queda no número de eleitores entre 21 e 34 anos.

Uma pesquisa da Atlas Intel encomendada para o cenário eleitoral amazonense, com entrevistas realizadas em maio, retrata essa distribuição: 24,9% dos entrevistados tinham entre 16 e 24 anos, 23,8% entre 25 e 34 anos, 22,1% entre 35 e 44 anos, 16,7% entre 45 e 59 anos e 13,5% acima de 60 anos.

Maioria com ensino médio, mas escolaridade ainda desigual

Sobre o grau de instrução, a mesma pesquisa da Atlas indica que 52,2% do eleitorado amazonense tem ensino médio completo ou incompleto, seguido por 23,7% com ensino fundamental completo ou incompleto e 15,1% com ensino superior completo ou incompleto. Outros 9,1% dos entrevistados se declararam analfabetos ou apenas alfabetizados o suficiente para ler e escrever.

O padrão se aproxima do observado em outros estados do país: no Piauí, por exemplo, a maior fatia do eleitorado tem apenas o ensino fundamental, enquanto em São Paulo mais de um terço concluiu o ensino médio. No Amazonas, a concentração em torno do ensino médio sugere um eleitorado que, em sua maioria, passou pela educação básica sem necessariamente ter acesso à formação superior — um dado que ajuda a entender também o perfil profissional predominante entre as eleitoras.

O trabalho da mulher amazonense: informalidade e comércio

O título de eleitor não registra profissão — o dado não existe no cadastro do TSE. Mas o retrato do mercado de trabalho feminino no Amazonas, levantado pelo IBGE e pelo Ministério do Trabalho, ajuda a entender que tipo de vida essa maioria de eleitoras leva fora da urna.

A taxa de ocupação no estado ficou em 55,7% no início de 2025, com 61,9% da população em idade de trabalhar participando ativamente da força de trabalho, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do IBGE. O Amazonas é o segundo estado da Região Norte com maior índice de informalidade, atrás apenas do Pará, com cerca de 982 mil pessoas fora da carteira assinada. Nacionalmente, a taxa de desocupação entre mulheres (6,9%) segue sistematicamente mais alta que a dos homens (4,8%), e o trabalho por conta própria responde por 31,2% da população ocupada amazonense — o terceiro maior índice do país.

Os dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram um mercado de trabalho formal que segue majoritariamente masculino: em 2025, o Amazonas gerou 21.075 empregos com carteira assinada, dos quais 11.436 foram ocupados por homens e 9.639 por mulheres. O comportamento varia mês a mês — em janeiro de 2026 as mulheres lideraram as contratações, mas em maio a proporção se inverteu. O setor de Comércio e Serviços, que responde por 68,4% de todos os vínculos formais do estado, é tradicionalmente o que mais emprega mulheres, enquanto o Polo Industrial de Manaus, com média de 130.605 empregos entre janeiro e maio de 2026, segue mais concentrado em mão de obra masculina.

Onde vivem: Manaus concentra mais da metade do eleitorado

A distribuição geográfica do eleitorado amazonense é marcada por uma forte concentração na capital. Manaus reúne 53% de todos os eleitores aptos a votar no estado — 1.472.357 pessoas —, enquanto os outros 61 municípios dividem os 1.329.733 eleitores restantes. No interior, os maiores colégios eleitorais são Manacapuru (81.255 eleitores), Itacoatiara (76.398), Parintins (73.558), Coari (52.010), Tefé (50.455) e Iranduba (46.093) — municípios que, somados, concentram uma fatia relevante do chamado “eleitorado ribeirinho e do interior”, historicamente menos assistido por políticas públicas e infraestrutura de voto do que a capital.

Maioria que ainda não se vê representada

O contraste entre o peso numérico das mulheres nas urnas e sua presença nos espaços de poder é o que mais chama atenção de quem estuda o tema no Amazonas. Para a cientista social Paula Ramos, mestre em Sociologia Política pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o fato de as mulheres serem maioria do eleitorado tende a pautar as demandas dos candidatos, já que são elas as mais afetadas pelo custo de vida, pela segurança pública e pela violência que atinge diretamente suas famílias.

Já a professora e doutora em sociologia pela Ufam Ana Cláudia Fernandes Nogueira chama atenção para o outro lado da equação: apesar de somarem a maioria do eleitorado, as mulheres ainda ocupam poucos cargos eletivos no Amazonas. Para ela, ampliar a presença feminina nos espaços de poder é condição para que as decisões políticas passem a refletir de forma mais fiel as demandas da própria maioria que hoje decide as eleições.

É esse descompasso — entre quem vota e quem governa — que deve moldar boa parte do debate eleitoral no Amazonas em 2026, um estado que chega a outubro com 2,8 milhões de eleitores aptos a votar e, pela primeira vez com tanta clareza, uma maioria feminina consolidada nas urnas.

Fontes: TSE, TRE-AM, IBGE/PNAD Contínua, Ministério do Trabalho e Emprego (RAIS/Novo Caged) e pesquisa Atlas Intel/RDR (maio de 2026).

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