Tarifas dos EUA acendem alerta para a ZFM, mas mercado interno blinda empregos no PIM
Nova sobretaxa americana ameaça a competitividade de motocicletas, dispensadores de papel-moeda, lentes e bebidas produzidos na Zona Franca; mas com 99% do faturamento voltado ao mercado interno, o polo encerrou 2025 com recorde histórico de R$ 227,6 bilhões e exportações crescentes

Por Redação | Manaus, 3 de junho de 2026
A nova rodada de sobretaxas anunciada pelo governo dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros — desta vez fixada em 25% — voltou a colocar em evidência os riscos do protecionismo americano para as indústrias instaladas na Zona Franca de Manaus (ZFM). O alerta veio num momento em que o Polo Industrial de Manaus (PIM) vivia um de seus melhores ciclos: em 2025, o polo bateu o maior faturamento de sua história, atingiu recorde de empregos e expandiu as exportações. Mas a barreira tarifária acende uma luz amarela sobre a competitividade dos produtos amazonenses no mercado externo — mesmo que os números mostrem que os EUA absorvem menos de 1% do que o polo produz.
O que a ZFM exporta e para onde
Os dados consolidados da Suframa para o fechamento de 2025 mostram que as exportações totais do PIM somaram US$ 663,92 milhões ao longo do ano, crescimento de 7,07% em relação aos US$ 620,10 milhões registrados em 2024. Do outro lado, as importações de insumos e componentes industriais chegaram a US$ 13,94 bilhões, deixando a balança comercial da ZFM com saldo negativo superior a US$ 13 bilhões. A produção local é destinada majoritariamente ao mercado interno brasileiro, que absorve mais de 98% do faturamento do polo.
Entre os produtos que mais saem da Zona Franca com destino aos Estados Unidos, a Suframa lista: motocicletas de cilindrada superior a 125cc (mais de US$ 10,4 milhões); dispensadores automáticos de papel-moeda (US$ 6,5 milhões); rodas dentadas e órgãos de transmissão (US$ 4,5 milhões); lentes para óculos de matérias diversas (US$ 3,4 milhões). Bebidas e madeiras também figuram na relação. São produtos de maior valor agregado, e é justamente esse segmento que sofrerá o impacto mais direto da sobretaxa americana.
Em 2024, o PIM exportou US$ 99 milhões para os Estados Unidos — menos de 0,3% do faturamento total do polo naquele ano. Em 2025, os dados indicam que o volume exportado ao mercado americano continuou sendo uma fração pequena do total. No entanto, a imposição de tarifas de 25% sobre esses produtos na entrada nos EUA tornará as mercadorias amazonenses menos competitivas frente a concorrentes de outros países não taxados.
Empresários em alerta: “barreira enorme” para os exportadores
Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antonio Silva, a nova rodada de tarifas é uma medida de grande repercussão. Em nota, ele afirmou que os produtos amazonenses que têm os EUA como destino — especialmente aqueles com maior valor agregado — enfrentarão uma barreira tarifária que os tornará muito menos competitivos no mercado americano. “Isso trará desafios significativos para a indústria e o comércio do Amazonas, assim como para o Brasil como um todo”, disse.
A medida, que chegou a ser anunciada inicialmente com alíquota de 50% sobre todos os produtos brasileiros, foi parcialmente amenizada pelo governo norte-americano. A versão final fixou a sobretaxa em 25% para a maior parte dos bens, com isenções para setores estratégicos como aeronaves civis, energia, suco de laranja, ferro-gusa, metais preciosos e celulose. Ainda assim, a entrada em vigor das novas regras gerou reação imediata do setor produtivo amazonense e do governo federal, que busca negociar a revisão das alíquotas.
Nova gestão na Suframa: Montenegro vê ambiente de negócios “fortalecido”
A avaliação da atual liderança da Suframa é de relativa tranquilidade quanto ao impacto direto das tarifas sobre o PIM. O superintendente Leopoldo Montenegro, que assumiu o cargo em 2026 no lugar de Bosco Saraiva, tem destacado a resiliência do polo mesmo diante do cenário adverso no comércio exterior. “Ultrapassar 58 bilhões de faturamento em reais e manter quase 130 mil empregos diretos demonstra a solidez da indústria da Zona Franca de Manaus. Além disso, também tivemos um incremento de quase 50% nas exportações”, afirmou ao comentar os resultados do primeiro trimestre de 2026.
A Suframa ressalta que a ZFM exporta apenas 1,5% de seu faturamento, e que desse percentual, menos de 10% têm como destino os Estados Unidos. Na prática, apenas 0,15% do faturamento total da Zona Franca estaria exposto às novas tarifas americanas. A autarquia também lembra que qualquer produto fabricado no Brasil e exportado aos EUA estará sujeito à taxa, independentemente de ter sido produzido na Zona Franca — o modelo não confere imunidade tarifária no exterior.
A coordenadora-geral de Assuntos Estratégicos da Suframa, Ana Maria de Souza, avaliou que o risco mais imediato das tarifas recai sobre as commodities brasileiras — café, indústria de base e setor siderúrgico —, gerando reflexos indiretos sobre a renda do consumidor brasileiro e, por consequência, sobre a demanda pelos produtos do PIM no mercado interno.
Recorde histórico em 2025: R$ 227,6 bilhões e 131 mil empregos
Os números do fechamento anual de 2025 dão substância ao argumento de que o PIM está blindado pelos próprios fundamentos de seu modelo. Pelo quarto ano consecutivo, o polo bateu o maior faturamento de sua história: R$ 227,67 bilhões entre janeiro e dezembro, crescimento de 11,02% sobre o recorde anterior, de R$ 205,07 bilhões em 2024. Em dólares, o faturamento global chegou a US$ 40,90 bilhões, alta de 8,68% na comparação anual.
O mercado de trabalho também atingiu patamar histórico. As fábricas do polo encerraram dezembro de 2025 com média mensal de 131.401 trabalhadores diretos — efetivos, temporários e terceirizados —, crescimento de 5,92% sobre a média de 2024, que foi de 124.056 postos. O polo finalizou o ano com 553 empresas em operação e mais 170 novos projetos aprovados pela Suframa para implantação nos próximos anos.
Os principais subsetores do PIM por participação no faturamento em 2025 foram: Bens de Informática (22%); Duas Rodas (19,93%); Eletroeletrônico (15,7%); Químico (10,22%); Mecânico (9,86%); Termoplástico (8,35%); e Metalúrgico (7,85%). O setor eletroeletrônico e de informática — maior pilar do polo, com 37,7% do faturamento conjunto — praticamente não exporta para os EUA, pois sua produção é quase integralmente voltada ao mercado interno.
2026: exportações em alta de 48% no trimestre, mesmo com troca de comando
A transição de gestão na Suframa — Bosco Saraiva saiu em março de 2026 e Leopoldo Montenegro assumiu o cargo — não interrompeu o desempenho do polo. No primeiro trimestre deste ano, o PIM faturou R$ 58,26 bilhões (US$ 11,02 bilhões), crescimento de 2,24% sobre igual período de 2025. O destaque ficou com as exportações: US$ 214,87 milhões acumulados no trimestre, expansão de 48,35% em relação aos US$ 144,84 milhões exportados nos primeiros três meses do ano anterior.
No mercado de trabalho, o polo manteve o nível elevado: em março de 2026, foram contabilizados 129.636 trabalhadores empregados, com média trimestral de 129.812 postos diretos. No bimestre janeiro-fevereiro, as exportações acumuladas chegaram a US$ 125,29 milhões, alta de 27,28% sobre o mesmo período do ano anterior (US$ 98,44 milhões).
No governo estadual, a Sedecti também passou por mudança: Serafim Corrêa deixou o cargo em 2 de abril de 2026 para disputar uma vaga de deputado federal nas eleições do ano,mas acabou sendo eleito vice-governador na chapa do governo-tampão de Roberto Cidade. Durante sua gestão, iniciada em 2023, o Conselho de Desenvolvimento do Amazonas (Codam) aprovou 840 projetos industriais, com investimentos da ordem de R$ 19,94 bilhões e a geração de 24.618 novos postos de trabalho.
O risco é indireto, mas real
Para analistas do setor, o maior perigo não é a exposição direta das exportações do PIM ao mercado americano — que, como os números mostram, é marginal. O risco mais concreto é o efeito de contaminação: ao encarecer as exportações brasileiras para os EUA, as tarifas de Trump reduzem a entrada de dólares no país, pressionam a renda do consumidor brasileiro e podem refrear a demanda pelos produtos eletroeletrônicos, motocicletas e bens de consumo fabricados em Manaus.
A dependência do consumo doméstico é simultaneamente o maior escudo do modelo ZFM contra o protecionismo americano e sua principal vulnerabilidade estrutural. Dados da Suframa mostram que, em 2025, 64,15% dos insumos utilizados pelas indústrias do PIM vieram do exterior, mantendo elevado o déficit da balança comercial industrial. O desequilíbrio reforça a dificuldade histórica de adensar cadeias produtivas locais, mesmo em um cenário de recordes de faturamento e empregos.
O governo federal segue negociando com Washington a revisão das sobretaxas. O desfecho das tratativas é incerto — e o PIM, mesmo com indicadores robustos e gestão renovada, monitora os desdobramentos com cautela.
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NÚMEROS-CHAVE DO PIM
Faturamento 2025: R$ 227,67 bilhões (US$ 40,90 bi) | recorde histórico, +11,02% sobre 2024
Exportações 2025: US$ 663,92 milhões (+7,07% sobre 2024)
Exportações para os EUA (2024): US$ 99 milhões (<1% do faturamento)
Empregos diretos — média 2025: 131.401 trabalhadores (+5,92% sobre 2024)
Empregos diretos — 1º trim. 2026: média de 129.812 postos
Exportações 1º trim. 2026: US$ 214,87 milhões (+48,35% sobre 1º trim. 2025)
Empresas no polo: 553 em operação + 170 projetos aprovados
Fontes: Suframa (gov.br), Fieam, Portal Amazônia, Em Tempo, Revista Cenarium, Portal do Amazonas.
