Sob pressão, Wagner cai da liderança do Senado e reabre crise da “República da Bahia”
Saída do líder do governo foi selada em reunião de duas horas no Alvorada; PT corre para blindar Jerônimo, Rui Costa e a própria reeleição presidencial do desgaste provocado pelo escândalo do Master

Depois de resistir publicamente por mais de uma semana, o senador Jaques Wagner (PT-BA) anunciou nesta quarta-feira (24) sua saída da liderança do governo no Senado, cargo que ocupava desde dezembro de 2022, ainda no governo de transição. A decisão veio horas depois de um encontro de cerca de duas horas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio da Alvorada — articulação que o Planalto vinha tentando evitar transformar em demissão, preferindo que a iniciativa partisse do próprio aliado.
Wagner é alvo da 9ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em 18 de junho para apurar suspeitas de corrupção ativa, passiva e lavagem de dinheiro ligadas ao Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro. Durante a ação, a PF apreendeu US$ 55 mil e € 33 mil em espécie, além de relógios de luxo, em endereços do senador em Brasília e Salvador. Também foram alvo da operação Augusto Lima, ex-sócio do Master, e Eduardo Sodré Martins, enteado de Wagner e secretário do governo baiano.
Resistência e recuo
Até a véspera, Wagner sustentava que não pediria para deixar o posto por iniciativa própria. Chegou a dizer que Lula não havia cogitado essa possibilidade no telefonema que tiveram horas após a deflagração da operação. A resistência se apoiava na relação de quase 50 anos entre os dois — Wagner foi um dos poucos aliados que mantiveram apoio público a Lula durante a prisão, em 2018, e é descrito por interlocutores do Planalto como um dos raros nomes capazes de dizer “não” ao presidente.
Mas a pressão interna cresceu rapidamente. A ministra Simone Tebet defendeu publicamente o afastamento “para não expor o próprio governo”. O deputado Rogério Correia (PT-MG) e o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, fizeram coro. Nos bastidores, o ministro Sidônio Palmeira — companheiro histórico de Wagner na Bahia e hoje à frente da Secom — foi apontado por aliados do governo como um dos que levaram a Lula a necessidade da saída, embora negue ter sido o autor da articulação.
“Em comum acordo”
Em nota divulgada após o encontro com Lula, Wagner classificou a decisão como tomada “em comum acordo” e descreveu a conversa no Alvorada como um diálogo “entre amigos”. Reforçou não ser réu nem ter sido denunciado em qualquer processo ligado ao caso e afirmou que sua prioridade agora é jurídica e eleitoral: “Neste momento, minha prioridade absoluta é provar minha inocência e me dedicar à reeleição do presidente Lula e do governador Jerônimo Rodrigues, além da minha reeleição junto com Rui Costa para o Senado.” A defesa do senador já havia recorrido ao STF, pedindo ao ministro André Mendonça a anulação da operação por “erros graves”, e sustenta que os valores apreendidos têm origem lícita — parte de diárias do Senado, parte de operações bancárias regulares.
Quem deve assumir a liderança
O Planalto ainda não oficializou o substituto. O nome mais citado nos bastidores é o do senador Camilo Santana (PT-CE), ex-ministro da Educação. Outra opção avaliada é a senadora Teresa Leitão (PT-PE), embora sua indicação crie um impasse: ela já ocupa a liderança do PT no Senado e, se mudar de função, a sigla precisaria escolher outro nome para essa vaga. A própria Teresa afirmou que “tudo só pode ser resolvido depois que o presidente se posicionar”.
O abalo na “República da Bahia”
O episódio expõe fissuras no núcleo de poder conhecido como “República da Bahia” — grupo formado por Wagner, Rui Costa e Sidônio Palmeira, que ganhou peso a partir da chegada de Sidônio à Secom em 2025. A Bahia é o estado em que o PT governa há mais tempo no país, com cinco mandatos consecutivos somando as gestões do próprio Wagner, de Rui Costa e, agora, de Jerônimo Rodrigues. É também o maior reduto eleitoral de Lula, decisivo para a vitória de 2022 e tratado como prioridade para a tentativa de reeleição.
Por isso, a cúpula da campanha petista discutiu o caso já na reunião de coordenação de segunda-feira (22), em Brasília, e definiu que uma solução precisava sair antes das comemorações do 2 de Julho — data de independência da Bahia, quando o governo federal pretende anunciar medidas para o estado. A avaliação interna é que a indefinição prolongada ampliava o desgaste e criava ruído justamente na principal vitrine eleitoral do partido.
O risco para Rui Costa
A apuração da PF também cita, indiretamente, privatizações feitas na gestão de Rui Costa à frente do governo baiano, o que reforça o temor petista de que a investigação possa avançar além de Wagner. Segundo análises da cobertura política, esse é considerado o cenário mais grave possível: se o inquérito alcançar Rui Costa, hoje pré-candidato ao Senado pela Bahia, o estrago seria sentido em todo o partido, não apenas no entorno de Wagner.
Impacto eleitoral na Bahia
Pesquisa Paraná Pesquisas divulgada em maio já mostrava o ambiente eleitoral baiano: Rui Costa lidera a disputa pelo Senado com 48,8% das intenções de voto, seguido por Wagner, com 40,6%. Wagner, porém, é também o nome com maior índice de rejeição entre os pré-candidatos ao cargo, em 26,2%. A simultaneidade da crise com o período eleitoral é o que mais preocupa a cúpula petista: tanto a reeleição de Jerônimo Rodrigues ao governo do estado quanto as candidaturas ao Senado podem sofrer reflexos negativos caso o caso Master continue em evidência.
Curiosamente, o tema tem sido tratado como assunto “proibido” na disputa local. Reportagens apontam um pacto informal de não agressão entre o grupo de Wagner e o do ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil), seu principal adversário histórico no estado — ambos os campos teriam interesse em não explorar o escândalo, já que adversários internos de ambos os lados guardam vulnerabilidades semelhantes ligadas ao Master.
O que vem a seguir
Para parte do núcleo baiano do governo, a saída da liderança no Senado não deve, por si só, prejudicar a candidatura de Wagner ao Senado — mas ajuda o Planalto a distanciar a imagem do governo do escândalo às vésperas da campanha presidencial. Já no entorno de Sidônio Palmeira, a avaliação é que as relações de Daniel Vorcaro com políticos baianos devem se tornar, de qualquer forma, tema de disputa na campanha de outubro. A definição do nome que assumirá a liderança do governo no Senado, aguardada para os próximos dias, será o primeiro indicador de como o Planalto pretende reorganizar sua base no Congresso depois do desgaste.
