Conta de luz mais cara: entenda por que o Amazonas paga mais desde maio
Reajuste de 3,79% para residências entrou em vigor em meio à troca de controle da distribuidora e a uma dívida histórica de bilhões de reais herdada de décadas de crise

— Desde o dia 26 de maio, os consumidores residenciais do Amazonas pagam mais caro pela energia elétrica. O reajuste de 3,79%, aprovado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), chegou às contas de quase 1,06 milhão de unidades consumidoras no estado — e veio acompanhado de um capítulo que se arrasta há mais de vinte anos: a crise financeira crônica da distribuidora, que só foi parcialmente contida por uma mudança de controle acionário concluída poucas semanas antes do novo índice entrar em vigor.
O aumento, ainda que doa no bolso, poderia ter sido bem maior. E entender por que ele não foi passa por três frentes que se cruzam: o custo real de produzir e transportar energia, as taxas obrigatórias do setor elétrico e o peso de uma dívida bilionária que atravessou três donos diferentes da concessionária nos últimos anos.
O que mudou na prática
A partir de 26 de maio de 2026, as tarifas da antiga Amazonas Energia — agora sob controle da Âmbar Energia Amazonas — passaram a valer com os seguintes reajustes médios, conforme aprovação da ANEEL:
– Baixa tensão (residências, comércios pequenos, zona rural): alta de 3,79%
– Alta tensão (indústrias e grandes empresas): alta de 13,24%
– Efeito médio geral para todos os grupos: 6,58%
O grupo de baixa tensão representa 99,7% dos consumidores atendidos pela distribuidora no estado, que fatura cerca de R$ 4,39 bilhões por ano.
Antes de a ANEEL aprovar o índice final, a área técnica da agência havia calculado um aumento de 23,15% — mais de seis vezes o valor que efetivamente entrou em vigor.
Por que a conta subiu: os custos que ninguém controla
Parte do reajuste vem de despesas que a distribuidora simplesmente repassa, sem poder alterar:
Compra e transporte de energia. A concessionária não gera sozinha toda a energia que distribui. Uma fatia relevante é comprada de outras geradoras — incluindo termelétricas a diesel usadas no interior do estado, mais caras que outras fontes — e paga-se ainda pelo uso das linhas de transmissão. Esses valores oscilam com a inflação, o câmbio e o preço da energia no mercado nacional, pressionando a tarifa ano após ano.
Encargos setoriais. São taxas obrigatórias, fixadas em lei, que financiam políticas do setor elétrico em todo o país — de subsídios a certas fontes de geração a programas de universalização do acesso à energia em regiões remotas. A distribuidora não escolhe pagar ou não: o valor é repassado automaticamente na conta de cada consumidor.
Segundo a nota técnica da ANEEL, foi justamente essa combinação — aquisição, transporte e encargos — que puxou o reajuste para cima neste ciclo.
A dívida que vem de longe
Por trás do número final está uma crise que não começou agora. A situação financeira da distribuidora amazonense é considerada insustentável há mais de duas décadas.
Um levantamento técnico da própria ANEEL, já em 2010, apontava um desequilíbrio estrutural na empresa: as chamadas perdas não técnicas — furto e fraude de energia, o popular “gato” — chegavam a 39,2% do mercado de baixa tensão. Ou seja: quase quatro em cada dez unidades de energia entregues não eram pagas.
O quadro se agravou depois que a Eletrobras deixou o negócio, em 2018, e o consórcio Oliveira Energia assumiu a concessão. Em poucos anos, a empresa acumulou uma dívida que chegou a ser estimada entre R$ 11 bilhões e R$ 14 bilhões, com prejuízo anual superior a R$ 700 milhões. No total, ao longo de 20 anos, as perdas somaram mais de R$ 30 bilhões.
A situação chegou a tal ponto que, em novembro de 2023, a própria ANEEL recomendou ao governo federal a extinção do contrato de concessão — o equivalente a decretar a falência regulatória da empresa. A alternativa avaliada, uma intervenção estatal direta, poderia custar aos cofres públicos até R$ 20 bilhões.
A entrada da Âmbar: solução negociada, não gratuita
Para evitar esse cenário, o governo optou por uma transferência negociada de controle. Em abril de 2026, a Âmbar Energia — braço do grupo J&F, dos irmãos Wesley e Joesley Batista — assumiu oficialmente a concessionária, batizada agora de Âmbar Energia Amazonas.
O acordo prevê um aporte mínimo de R$ 9,8 bilhões em até 60 dias, destinado a reequilibrar as finanças da empresa e recuperar sua capacidade operacional. A nova gestão, comandada pelo executivo João Pilla, também sinalizou mudanças estruturais: o abandono do modelo de medidores aéreos e a redução da dependência de termelétricas a diesel no interior — um dos principais gargalos do sistema elétrico amazonense.
A própria Âmbar afirma, oficialmente, que a tarifa não é definida pela empresa, e sim exclusivamente pela ANEEL. Mas seu papel no reajuste de 2026 foi mais relevante do que essa nota sugere à primeira vista: foi a Âmbar quem solicitou à agência reguladora a antecipação de R$ 735 milhões referentes à repactuação de cotas de Uso de Bem Público (UBP) — recurso que funcionou como um redutor tarifário e foi o principal motivo pelo qual o aumento caiu de 23,15% para os 3,79% efetivamente cobrados dos consumidores residenciais.
E a bandeira amarela?
Somado ao novo patamar tarifário, o consumidor amazonense segue pagando o adicional da bandeira tarifária amarela, atualmente em vigor. O mecanismo, definido mensalmente pela ANEEL conforme as condições de geração de energia no país, acrescenta R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos — um custo à parte, que se soma ao valor-base da tarifa e aparece destacado na fatura.
O que isso significa para quem paga a conta
Em resumo, o aumento na conta de luz do Amazonas não tem uma causa única. Ele resulta da combinação entre:
1. Custos reais e crescentes de compra e transporte de energia;
2. Encargos setoriais obrigatórios, definidos por lei;
3. O peso de uma dívida bilionária e de décadas de perdas por furto e má gestão, herdada pela nova controladora;
4. Uma intervenção regulatória que reduziu o impacto inicial de mais de 23% para 3,79%, graças à antecipação de recursos pedida pela própria Âmbar.
Para o consumidor, o resultado prático é um aumento real — ainda que menor do que poderia ter sido — e a expectativa de que os investimentos prometidos pela nova gestão se traduzam, nos próximos anos, em menos apagões e mais estabilidade no fornecimento.
*Fontes: ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), Âmbar Energia, e cobertura da imprensa especializada em regulação do setor elétrico.*
