Região Norte mobilizada: fronteira reaberta e comunidades venezuelanas reagem à captura de Maduro
Boa Vista, Manaus, Belém,Macapá e Porto Velho registram manifestações e expectativas de mudanças após operação dos EUA na Venezuela

Fronteira Brasil-Venezuela normalizada após tensão
A fronteira entre Brasil e Venezuela voltou a operar normalmente após um breve fechamento registrado no início de janeiro de 2026. A interrupção temporária ocorreu logo após a operação militar dos Estados Unidos que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Cília Flores, levados para Nova York.
Em Pacaraima (RR), principal ponto de passagem entre os dois países, o fluxo de pessoas e veículos foi restabelecido. Integrantes do Exército e da Polícia Federal confirmam que a circulação está normalizada tanto para venezuelanos que entram no Brasil quanto para brasileiros que seguem para a Venezuela.
O comandante-geral da Polícia Militar de Roraima, coronel Overlan, informou que o policiamento foi reforçado de forma preventiva para garantir a segurança local e monitorar possíveis alterações no fluxo migratório.
Boa Vista: celebração e expectativa de retorno
Em Boa Vista, centenas de migrantes venezuelanos se reuniram no domingo (4) na praça do Centro Cívico para celebrar a prisão de Maduro. O ato foi marcado por música, queima de fogos e bandeiras, num clima que mesclou esperança por mudanças no país de origem com alívio diante da perspectiva de um novo capítulo político.
Muitos venezuelanos manifestaram o desejo de retornar ao país quando a situação se estabilizar. O casal Luiz Dias, pedreiro de 62 anos, e Maria Guillen, doméstica de 67, que estão há dois anos em Roraima, declararam gratidão ao Brasil pelo acolhimento recebido na Operação Acolhida, mas ressaltaram a esperança de voltar à Venezuela.
Contexto migratório em Roraima
O fluxo migratório de venezuelanos para Roraima registrou queda de 24% em 2025 em comparação com 2024, segundo o comandante da Operação Acolhida, general José Luís dos Santos. Mesmo assim, aproximadamente 80 mil migrantes ingressaram pela fronteira ao longo do ano.
Atualmente, cerca de 90 mil venezuelanos vivem em Roraima, estado que possui população aproximada de 600 mil habitantes. A Operação Acolhida mantém seis abrigos em Boa Vista, com cerca de 5.800 pessoas acolhidas no momento.
A Defensoria Pública de Roraima alertou para o risco de uma nova crise humanitária na fronteira, caso haja aumento significativo no fluxo de migrantes. O documento destaca que os abrigos e a operação humanitária já operam próximos da capacidade máxima.
Manaus: mobilização no Centro
Venezuelanos residentes em Manaus realizaram manifestações no fim da tarde de sábado (3) no Largo de São Sebastião, no entorno do Teatro Amazonas. A mobilização foi articulada por meio de diversos grupos de WhatsApp da colônia venezuelana que vive na capital amazonense.
Durante o ato, participantes entoaram o hino nacional da Venezuela, exibiram bandeiras e repetiram palavras de ordem associadas à liberdade e ao fim do governo de Maduro. O clima predominante foi de comemoração, com relatos de esperança por um novo cenário político no país vizinho.
Alvin Gamboa, que vive há três anos em Manaus, afirmou que o momento representa “uma retomada da esperança por democracia e liberdade”. Jofre Marinho, morador há oito anos na capital amazonense, expressou gratidão a Manaus e ao Brasil pela acolhida, mas destacou que “todo pai e mãe venezuelano sonha em levar seus filhos para conhecer a própria terra”.
Antes da concentração no Centro, parte do grupo percorreu vias da zona Norte em uma carreata pela Avenida Max Teixeira, acompanhada por buzinaços. Motoristas de aplicativo aderiram espontaneamente ao movimento.
Belém: desafios dos indígenas Warao
Em Belém, a situação dos venezuelanos, especialmente dos indígenas Warao, apresenta desafios particulares. Estima-se que cerca de 600 venezuelanos indígenas vivam no município de Belém, dos quais 170 estão abrigados no Espaço de Acolhimento Institucional administrado pela Fundação Papa João XXIII (Funpapa), localizado no bairro do Tapanã.
Em Ananindeua, município da região metropolitana de Belém, vivem cerca de 250 venezuelanos da etnia Warao. No total, a Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) estima que cerca de 700 indígenas Warao estejam concentrados entre Belém e Ananindeua.
A Polícia Federal, em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) e o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), realizou em outubro de 2025 um mutirão para regularizar a situação de indígenas venezuelanos da etnia Warao em Belém, concedendo-lhes status de refugiados.
Belém é a única cidade do país com uma legislação específica que protege as especificidades de quem é refugiado indígena. A lei foi sancionada em 2023 com participação ativa dos Warao.
Amapá: assistência em transição
No Amapá, o Governo do Estado garantiu assistência humanitária para grupos de venezuelanos em situação de vulnerabilidade social e econômica em Macapá. As ações foram coordenadas pelas secretarias de Estado da Assistência Social (Seas) e de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), oferecendo apoio alimentar e jurídico.
A expectativa é que muitos dos venezuelanos assistidos no Amapá utilizem o estado como ponto de passagem, seja para retornar à Venezuela quando a situação se estabilizar, seja para seguir para outros estados brasileiros.
Porto Velho: rota de interiorização
Porto Velho, em Rondônia, historicamente funciona como ponto de passagem para venezuelanos que chegam pela rota de Boa Vista e Manaus. Muitos utilizam a capital rondoniense como local temporário antes de seguir para outros estados onde a oferta de emprego é maior, como Mato Grosso, Acre ou estados do Sul e Sudeste.
O governo estadual costuma oferecer apoio temporário aos venezuelanos que chegam à cidade, com abrigos emergenciais enquanto providenciam documentação e passagens para outros destinos.
Perspectivas e incertezas
As autoridades regionais seguem em estado de alerta, monitorando possíveis mudanças no fluxo migratório. O governador de Roraima, Antonio Denarium, chegou a sugerir ao governo federal o fechamento temporário da fronteira para evitar uma entrada em massa de venezuelanos, proposta que não foi acatada.
O governo brasileiro informou que mantém atenção aos desdobramentos da situação no país vizinho e aos possíveis reflexos migratórios. A Operação Acolhida continua em prontidão para atender um eventual aumento na demanda.
Enquanto isso, as comunidades venezuelanas na região Norte do Brasil vivem um misto de esperança e cautela, aguardando os desdobramentos políticos na Venezuela para tomar decisões sobre seu futuro – seja construir uma vida definitiva no Brasil ou planejar o retorno ao país de origem.
Informações compiladas de diversas fontes jornalísticas da região Norte
